Fangirl – Rainbow Rowell

fangirl rainbow rowell

Nome: Fangirl

Autora: Rainbow Rowell

Editora: Novo Século

Páginas: 421

Quem acompanha meu blog toda semana percebeu que eu diminui bastante o número de resenhas publicadas aqui. Em comparação ao ano passado que, vale lembrar, foi meu ano de TCC, as resenhas quase sumiram! Há uma explicação para isso: entrei na maior ressaca literária da minha vida.

Eu começava a ler e deixava o livro de lado, começava a engrenar uma leitura, morria de tédio e ia para a Netflix, ou, então, olhava para a minha estante desanimada e não queria nem saber de ler. Pois é, foi difícil.

Não sei o que foi que me motivou a tirar “Fangirl” da estante, mas eu tirei e, olha, ainda bem!

Da Rainbow Rowell eu já tinha lido “Eleanor e Park”, um livro que eu achei absurdamente triste e poético. No ano passado, comprei todos os outros livros dela por R$10, em uma promoção doida e “Fangirl” estava no meio da pilha. Confesso que fiz a compra meio às cegas, confiando na história da autora e torcendo para que um deles fosse um romance leve e fofo.

Em “Fangirl” a gente acompanha a vida de Cath, uma caloura de faculdade que parece não estar lá muito pronta para essa nova fase da vida. Sua irmã gêmea, Wren, que sempre esteve junto dela para tudo, decidiu ser colega de quarto de outra pessoa e agora ela vai ter que lidar sozinha com a ansiedade de conhecer gente nova e de estar em um lugar diferente.

Cath é fã da série de livros Simon Snow e escreve fanfics gays com os personagens. Sua fanfic, “Vá em Frente” é lida por milhares de pessoas todos os dias e os livros dessa escritora fazem tanto parte da sua vida, que ela decide levar pôsteres para seu quarto da faculdade.

Quando ela conhece sua colega de quarto, Reagan e o namorado fofo dela, o Levi, ela percebe que, talvez, essa não foi a melhor ideia. Ou será que foi?

“Levi não ficaria impressionado com a fanfiction dela; achar legal não era o mesmo que ficar impressionado. Ele já achava ela uma esquisitona e isso só faria ela parecer ainda mais esquisita. A mulher barbada ficava empolgada quando algum gatinho vinha assistir ao show dela?” p. 132

Além de trabalhar como social media de algumas organizações, eu também produzo conteúdo. Toda vez que eu termino de escrever um artigo (não os do blog, infelizmente), eu recebo uma pequena quantia de dinheiro.

Isso quer dizer que, para complementar minha renda, eu preciso escrever PRA CARAMBA. Meu plano era escrever 4 textos diferentes no sábado, para conseguir respirar mais tranquila. Mas então decidi ler algumas páginas de “Fangirl” e só parei de ler quando cheguei ao final feliz.

“Não tem como a pessoa ser mãe se ela aparece depois que as crianças já cresceram. Ela parece com a cigarra que aparece no inverno após deixar a formiga fazer todo o trabalho. Quando a gente precisava dela, ela nem retornava as ligações. Quando ficamos menstruadas, tivemos que procurar informações no Google. Mas agora que a gente não sente mais a falta dela, depois que paramos de chorar por causa dela, depois que elaboramos tudo, agora ela quer nos conhecer?” p. 161

Esse livro não só matou minha produtividade, como me fez sorrir e querer mais e mais páginas que poderiam causar minha ruína financeira.

Essa foi uma leitura maravilhosa. Foi como receber uma massagem nas costas, daquelas que te ajuda a aliviar a dor constante e se livra daqueles nós nos músculos.  Foi como colocar meias secas nos pés, depois de andar na chuva e de ficar com o sapato encharcado. Foi um lembrete daquelas tardes em que eu tinha muita lição de casa para fazer, mas que tudo o que eu queria era ler e ler e ler.

Levou alguns segundos para que as linhas e cores compusessem um rosto que Cath pensou que poderia reconhecer. Nesses segundos, parte de Cath correu até a estranha, envolveu suas coxas com os braços e enfiou o rosto em sua barriga. Parte de Cath gritou. O mais alto que pôde. E parte dela ateou fogo ao planeta só para vê-lo arder.” p. 326

Tenho lido vários livros de “gente grande”. Clássicos, não-ficção, biografias… E eu adoro eles, mas eu não tinha percebido o quanto eu tinha sentido falta de livros como “Fangirl”, que te fazem sorrir, chorar e te deixam com sentimentos quentinhos no coração.

A Cath me fez lembrar daquela época em que eu estava absolutamente obcecada com “A Infiltrada”, da Nathália Marques. A fanfic da Cath “Vá em frente” tem um papel enorme no livro e vários trechos dela aparecem pela história. Pense em Malfoy se apaixona por Harry Potter e você vai ter uma ideia do que é. Confesso que eu queria tanto saber o que ia acontecer com a Cath que meio que dei uma pulada nessas páginas.

Eu me vi em vários pontos nessa personagem e fiquei até assustada. Muitas características da personalidade dela são parecidas com as minhas (A ansiedade! Os problemas com a mãe – no meu caso é o pai! A vontade de escrever!) e eu não consigo lembrar de uma personagem fictícia mais igual a mim. Eu também me apaixonei perdidamente pelo parzinho da Cath. Ainda estou suspirando por causa dele! haha

“- Ele é só um garoto – disse Reagan. – Claro que é diferente de você. Você nunca vai achar um garoto que seja exatamente como você. Primeiro porque esse cara nunca sai do quarto…” p. 181 (isso é muito Mandariela)

Os outros personagens do livro, Levi, Reagan, Wren, Laura e Nick são bem completos e descritos. A gente acompanha o primeiro ano universitário da Cath e acontecem muitas situações diferentes, que vão se desenvolvendo aos poucos, o que deixa tudo mais verossímil.

A única coisa “defeituosa” foi que eu achei o final meio corrido. Mas acho que é só porque eu queria ter mais e mais páginas para ler! haha

A tradução é meio horrenda, confesso, e eu peguei uns 3 erros diferentes. Em uma das páginas eles traduzem “Olive Garden”, o restaurante, como sendo “Jardim Olive”. Com certeza uma fada morreu por causa disso. É uma pena porque um livro tão bom e legal, que acaba sendo desvalorizado por coisas bobas.

Minha ressaca literária já foi curada e eu já passei da metade de “O Sol também é uma estrela”, da Nicola Yoon. Tomara que eu não vicie nesse também, porque se não não vou ter internet para poder postar no blog!

Às vezes, escrever é como descer um morro, seus dedos tocam o teclado do mesmo modo que suas pernas pisam o chão quando não conseguem lutar contra a gravidade.” p. 413

Beijoos, A Garota do Casaco Roxo

5 documentários para conhecer melhor a Inglaterra

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Ônibus de dois andares, cabines de telefones vermelhas, a Torre de Londres, táxis pretos e a realeza… São muitas coisas que evocam o imaginário das pessoas quando o assunto é Inglaterra.

Muita gente sonha em conhecer o país e em visitar alguns de seus monumentos turísticos. Confesso: entre Londres e Paris, minha predileção vai para os franceses. Mas, recentemente, me surpreendi com a quantidade de documentários disponíveis na Netflix sobre a Inglaterra.

Como eu não recuso um bom doc, acabei embarcando na viagem e descobrindo muitas coisas sobre o país da Rainha Elizabeth.  

Por isso, elaborei a lista dos melhores documentários que vi sobre a Inglaterra. Vamos conferir?

  • “She-Wolves: England’s Early Queens”

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Recentemente, eu reclamei aqui no blog sobre o quão pouco a gente aprende sobre história da América Latina, durante a escola. “She-Wolves: England’s Early Queens” me mostrou que até mesmo aquilo que a gente aprende sobre a história de outros países não é lá tão aprofundado.

Eu, por exemplo, sempre acreditei que Elizabeth I sucedeu Edward VI de imediato. Os dois são filhos do Henrique VIII, aquele do anglicismo e que costumava matar as esposas (a mãe da Elizabeth, Ana Bolena, inclusive). O que eu não sabia eram as diversas disputas de poder que aconteceram antes de Elizabeth I assumir o trono.

Em “She-Wolves: England’s Early Queens”, nós seguimos a trajetória de 7 diferentes rainhas inglesas, que assumiram o poder em momentos diferentes da história da Inglaterra. Por meio de guerras, disputas internas e conspirações, as rainhas abriram caminho para que a monarca Elizabeth II pudesse reinar por mais de 60 anos.

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O programa é dividido em 3 episódios e é apresentado por Helen Castor, uma historiadora que costuma biografar diversas rainhas, inclusive Joanna D’Arc.

O ritmo do documentário é um pouco lento e muitas informações são passadas ao mesmo tempo. Confesso que me perdi em alguns episódios e tive que voltar para trás para entender o que estava acontecendo.

Mesmo assim, o documentário tem grande apelo e charme e qualquer pessoa que goste da realeza vai amar entender melhor como as linhas de sucessão funcionavam no passado.

  • Secrets of Westminster

Secrets of westminster cover photo

Esse é o tipo de documentário que qualquer pessoa com vontade de conhecer Londres ia amar!

Ele faz uma viagem super detalhada por dentro do Parlamento Britânico, da Abadia de Westminster e do Big Ben. Além disso, o documentário aborda tradições e explica o porquê da rainha não poder entrar NUNCA na “House of Commons”, o equivalente à nossa Câmara dos Deputados.

Eu, por exemplo, sempre vi imagens aéreas de Londres e não sabia que a Abadia onde Kate Middleton se casou ficava exatamente atrás do prédio do Parlamento Britânico.

Bem editado e rico em imagens, a impressão que dá é que você está passeando pelas ruas de Westminster mesmo.

  • Os Segredos de Scotland Yard e Secrets of her Majesty’s Secret Service

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Reuni os dois documentários em um só porque ambos falam sobre segurança pública na Inglaterra. O primeiro aborda um pouco da história da Scotland Yard, desde seu surgimento até os dias atuais.

O pessoal que ama investigação criminal vai adorar esse documentário, porque ele retoma algumas investigações que foram importantes para a polícia como a de Jack, o Estripador. Além disso, eles falam um pouquinho sobre perícia criminal e sobre como o trabalho deles se desenvolveu.

secrets of her majesty's secret service

O segundo, “Secrets of her Majesty’s Secret Service”, fala sobre o MI6 e os serviços de espionagem da Inglaterra. Vi ele em uma semana que eu estava bem obcecada com James Bond e foi bem legal ver que há todo um pano de realidade por trás da história do espião.

O documentário não é lá muito esclarecedor porque, bem, ele fala sobre uma coisa que deveria ser secreta, né? Mas eles retomam a história do surgimento da agência, como uma divisão da Marinha Britânica, além de falarem um pouco, mas bem pouco, sobre como eles trabalham.

  • Secrets of Underground London

secrets of underground london

“Secrets of Underground London” segue a mesma linha de “Secrets of Westminster”, mas mostra um lado de Londres que não dá para ver por imagens aéreas: o subterrâneo.

O documentário aborda um pouco da história dos 154 anos de existência do metrô de Londres, desde o espanto com seu surgimento até os dias atuais, mas não fica só nisso.

placa do metrô de londres

Ele mostra um pouco do cotidiano dos londrinos, durante a Segunda Guerra Mundial, que envolvia se esconder em estações de metrô abandonadas e em bunkers subterrâneos, que seguem completamente preservados. Um desses abrigos pertencia a Winston Churchill e é bem legal ver como eles costumavam “se esconder” naquela época.

Uma escavação arqueológica que está recuperando os vestígios deixados pelos invasores romanos também é visitada pelos documentaristas e é bem interessante ver o passado de Londres abordado bem “profundamente”. Ba dam tss!

  • Secrets of Althorp – The Spencers

secrets of althorp the spencer

Esse foi um dos documentários que eu mais amei! Althorp é a residência oficial da família Spencer, do tipo, Lady Diana Spencer.

Ao contrário do que muitos pensam – eu, inclusive – Lady Di não era uma plebéia como Kate Middleton, mas sim descendente de uma família de aristocratas britânicos muito, muito ricos. A família tinha dinheiro a ponto de ter uma casa enorme, à la Pemberley,  como em Orgulho e Preconceito.

Na verdade, a linhagem real dos Spencer vem da Casa dos Stuart e é mais antiga do que a Casa de Windsor, de quem a família da Rainha Elizabeth descende. Há boatos de que os Spencer são mais da realeza do que a própria rainha. Cara, isso é tão Game of Thrones.

O documentário é quase que inteiro baseado em entrevistas de Charles Edward Spencer, 9° Conde de Spencer e irmão de Diana.

Charles Spencer 9° conde
Charles Spencer, durante a filmagem do documentário

Não só ele mostra a residência em que ele e Lady Di cresceram, mas também retoma um pouco da história e da memória da família, sem deixar de mencionar a irmã. Há um memorial na propriedade de Althorp, dedicado totalmente à Diana e a gente pode passear um pouco por ele, pelas das imagens do documentário.

É bem legal de ver e me fez ficar com vontade de ler a biografia de Lady Di e saber mais sobre ela, no ano em que seria o 20° aniversário de sua morte.

Bônus

  • Secrets of Great British Castles

secrets of great british castles

Esse documentário fez tanto sucesso, que não só tem 2 temporadas, mas também tem um spin-off, o “Secrets of Great Irish Castles”  que foca nos castelos da Irlanda.

Os programas são apresentados pelo historiador Dan Jones e cada episódio se desenrola em torno de castelos que tiveram papel importante na história do Reino Unido. Dover, a Torre de Londres, Caernarfon e Carrickfergus são alguns dos endereços visitados durante a série de documentários.

o apresentador de Secrets of Great British Castles na Torre de Londres
o apresentador de Secrets of Great British Castles na Torre de Londres

Editado por meio de reencenações de acontecimentos históricos, entrevistas com especialistas e tours dentro dos próprios castelos, o documentário é bem legal.

Apesar de bem informativo, ele não é tão cansativo quanto o “She-Wolves” e tem vários momentos de descontração. É bem interessante conhecer a história de castelos que foram erguidos em 1300 e são bem mais velhos do que meu próprio país.

Dan Jones no castelo de Cardiff
Dan Jones no castelo de Cardiff

Espero que minha lista te ajude a conhecer um pouco melhor a Inglaterra, seus pontos turísticos e a sua história. Agora é só abrir a Netflix e viajar sem sair do sofá!

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

Por que você deveria ver o seriado The Keepers

Pôster de divulgação do seriado The Keepers

Eu tive um mês de julho bem Católico – pelo menos para os meus padrões.

Fui batizada (como quase toda criança brasileira) na Igreja Católica, mas depois encontrei meu caminho em outra religião. Apesar disso, vou na missa de vez em quando e em julho fui duas vezes à Igreja (e mais uma terceira vez, mas só porque a Festa Julina do meu trabalho voluntário aconteceu no salão de uma Paróquia).

E, em todas essas vezes, não consegui parar de pensar em “The Keepers” e na Irmã Cathy Cesnik. “The Keepers” é um documentário que vai ficar junto de você por anos e anos.

A série, que é original da Netflix, conta a história do assassinato da freira Catherine Cesnik, que aconteceu na cidade Baltimore, em  7 de novembro de 1969.

Quando foi assassinada, a Irmã Cesnik tinha apenas 26 anos e era professora de inglês da Archbishop Keough High School. O desaparecimento e depois a descoberta do corpo da freira, 2 meses depois, chocou toda a cidade e o país. Esse post, do Huffington Post, em inglês, explica um pouco do que aconteceu na noite em que Cathy Cesnik foi assassinada.

foto da freira cathy cesnik
Cathy Cesnik

Poucos dias depois do desaparecimento da freira, uma jovem, Joyce Malecki, também foi encontrada morta. Joyce e Cathy moravam a apenas alguns quarteirões de distância uma da outra.

  • A perseverança de Gemma Hoskins e Abbie Schaud

Abby Schaub e Gemma Hoskins
Abby Schaub e Gemma Hoskins, em uma das cenas do documentário.

Nos primeiros episódios de “The Keepers”, nós somos apresentados a duas ex-alunas de Cathy Cesnik, Gemma Hoskins e Abbie Schaud. As duas ficaram chocadas com a morte da professora e, depois de aposentadas, decidiram dedicar parte de seu tempo a investigar o que aconteceu com a freira.

Gemma é mais extrovertida e gosta de conversar com as pessoas, para conseguir captar as informações necessárias. Já Abbie realiza pesquisas em bibliotecas e hemerotecas e usa o Facebook como uma de suas principais ferramentas de investigação.

Juntas, as duas descobriram mais informações do que aquelas que foram coletadas pela polícia de Baltimore, em 1969. Provavelmente, foi o trabalho de Gemma e Abbie que fez com que polícia reabrisse a investigação sobre a morte de Cathy.

gemma abby e gerry koob analisam a posição em que o carro da freira foi encontrado
The Keepers – Gemma e Abby analisam a posição em que o carro de Cathy foi encontrado no dia de seu desaparecimento

  • A coragem das vítimas de abuso sexual da Archbishop Keough

Fiquei durante todo o primeiro episódio tentando encontrar motivos (jovem, bonita, freira… nada se encaixava) para o assassinato da freira. Sem sucesso. Eu me sentia tão cega quanto a Polícia de Baltimore deve ter se sentido em 1969.

Foi só no segundo episódio que eu pude, enfim, encontrar um motivo plausível.

Em 1995, ex-alunas do Archbishop Keough tomaram coragem e revelaram os sistemáticos abusos sexuais que aconteciam no colégio e que eram perpetrados pelo capelão da escola, o Padre Joseph Maskell, e por um outro membro da diocese.

A história do documentário deixa de ser sobre o assassinato da freira e passa a ser algo maior. 

Os depoimentos mais contundentes são os das alunas Teresa Lancaster e Jean Wehner, cujas histórias me assombram até hoje, semanas depois de ter visto o programa.

jean wehner quando estava no último ano do ensino médio
Jean Wehner aos 17 anos, em seu último ano de Ensino Médio

Boa parte das memórias dessa época, Jean só conseguiu recuperar 30, 40 anos depois da morte de Cathy, de tão traumatizada que ficou.

  • A forma como os episódios foram costurados um ao outro

O formato de “The Keepers” é bem parecido com o de “Making a Murderer”. As peças do quebra-cabeça vão se juntando aos poucos e você começa a entender melhor os vários fatores que causaram a morte de Cathy Cesnik.

machete de jornal "who killed sister cathy?"

É como se um véu fosse retirado e, aquilo que não estava claro no começo, passa a fazer sentido. Intercalando 1969, com os anos 90 e os dias de hoje, a narrativa não é linear.

No final, a gente não temos uma resposta concreta à pergunta “Quem matou Cathy Cesnik e Joyce Malecki?”. Mas a forma como a narrativa é levada deixa uma leve sensação de justiça, tristeza e pena. Ao mesmo tempo sentimos que o dever de Abby e Gemma foi devidamente cumprido.

O seriado é entristecedor e vai permanecer na sua cabeça por muitos, muitos, muitos dias, quiçá para sempre. Mas acho que é isso que o torna algo que merece ser visto.

Em 2019, o assassinato de Cathy Cesnik vai completar 50 anos e, com “The Keepers”, ele segue atual e relevante.

  • O seriado não cai em sensacionalismo barato

Essa é a história da morte de uma freira que não só foi brutalmente assassinada, como também foi violentada. Esa é a história de adolescentes que foram manipuladas por padres católicos e que eram estupradas e abusadas física e psicologicamente com frequência. Essa é uma história de duas mulheres, que nunca desistiram de tentar descobrir a verdade.

Sabe aquele programa que tinha tudo para entrar num sensacionalismo barato, para tentar conseguir audiência?

Felizmente, “The Keepers” foge dessa fórmula.

Eu não consigo lidar muito bem com histórias que abordem estupro e, mesmo assim, consegui ver os depoimentos de Jean Wehner. Apesar de pesados e dolorosos (e de que eu, provavelmente, nunca vou esquecer deles), você vai acabar admirando a coragem dela.

werner spitz médico legista mostrando o crânio de cathy cesnik
The Keepers – Werner Spitz mostrando o crânio de Cathy Cesnik

Em um dos momentos, o médico-legista que analisou o corpo de Cathy, Werner Spitz (que também foi o responsável pelas autópsias de John F. Kennedy e de Martin Luther King), fala sobre o estado em que o cadáver foi encontrado. Ele mostra uma foto do crânio de Cathy e o seriado ganha um tom mais pesado.

Mesmo assim, dá para perceber que há um grande respeito à memória de Cathy Cesnik e as experiências de vida de Jean Wehner e Teresa Lancaster.

Esse é um assunto que não merece e que nem necessita de sensacionalismo. Os temas são abordados sem deixar de lado importância e a relevância que têm.

  • A qualidade das entrevistas

Eu trabalhei como jornalista por um tempinho e sei como é complicado entrevistar uma pessoa que não quer que aquelas informações sejam divulgadas.

Só de imaginar Jean Wehner falando sobre a série de abusos que sofreu nas mãos do Padre Maskell, já dá para entender o porquê as entrevistas desse documentário são tão boas. Acredito que, nesses momentos, a equipe nem fez perguntas e só deixou a Jean falar livremente em frente à câmera.

Em um dos episódios, acompanhamos a entrevista de Edgar Davidson, apontado como suspeito de matar a Irmã Cathy – ele está quase senil e as perguntas são respeitosas à condição dele, mas não deixam de pressioná-lo um pouco.

Em outro momento, o atual detetive responsável pelo caso é bombardeado com fatos e informações que Ryan White, o diretor do documentário, coletou com Abby e Gemma. Ele chega a fazer caras de espanto porque que boa parte das informações ainda está sob segredo de justiça.

É bem interessante observar a dinâmica dessas entrevistas e dessas conversas.

Uma das minhas maiores expectativas era ver o depoimento do próprio Padre Maskell, mas ele teve um derrame e morreu em 2001, depois de passar anos na Irlanda, fugindo dos desdobramentos do caso. O documentário dá um enfoque nisso e mostra que Maskell, apesar de ser relativamente novo (ele morreu aos 62 anos), já sofria de demência e não se lembrava dos acontecimentos do passo.

Até mesmo Gerry Koob, um ex-Padre que afirmou ter sido muito apaixonado por Cathy e que teve um papel central na noite do desparecimento de Cathy, é posto na parede em alguns momentos.

irmã cathy cesnik
The Keepers

Para aqueles que gostaram de “Spotlight – Segredos Revelados”, esse é um documentário que não só aprofunda a causa, mas que mostra que o trabalho de amadores também pode ser efetivo – de certa forma – nesses casos.

“The Keepers” não é um seriado que você deve ver só por ver. É um documentário que, imagino, pode levar alguns até a questionarem a própria fé.

Ao mesmo tempo, essa é uma experiência essencial. Nem que seja para impedir que coisas como essa sigam acontecendo no mundo, sem que ninguém se manifeste.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

15 escritores famosos que tinham profissões inusitadas

15 escritores famosos que tinham profissões inusitadas

Escrever um livro pode parecer uma tarefa fácil, mas não é. Entre pesquisa, elaboração de enredo, mais pesquisa, mais elaboração de enredo, escrita, escrita, escrita, escrita, revisão, revisão, revisão e revisão, existe muito mais trabalho do que pode parecer inicialmente.

Por vezes, esse é um ofício que não ganha reconhecimento pelo esforço que demanda.  Até mesmo autores publicados têm dificuldade em viver só de escrever livros e, normalmente, possuem aquilo que os americanos chamam de “day job”, um trabalho fixo, que permita que eles paguem as contas e sigam escrevendo.

Dessa forma, não é estranho ouvir histórias de escritores best-seller, traduzidos em 40 países e com livros adaptados para o cinema, que trabalhavam como zeladores, supervisores de dormitórios e até cantores (James Joyce, por exemplo, era cantor e pianista e também trabalhou operando um projetor de cinema, antes da publicação de “Dublinenses”).

Por isso, deixe um pouco a caneta e o bloquinho de lado, leia essa lista e inspire-se nas diversas profissões que escritores famosos tinham, antes de se tornarem um sucesso!

  • Meg Cabot era supervisora de um dormitório de faculdade

Foto da escritora Meg Cabot

Também conhecida como minha escritora favorita, Meg Cabot foi aconselhada pelos pais a ter uma profissão que desse dinheiro, antes de se jogar no mundo literário. Então, ela estudou Arte, na Indiana University. Coisa que, convenhamos, também não dava muita estabilidade.

Quando a faculdade terminou, ela se mudou para Nova Iorque, porque era “onde as oportunidades estavam” e passou a trabalhar em uma livraria, ainda sem escrever nada.

Foi nessa época que ela começou a ficar curiosa com os romances históricos. Meg via que eles vendiam muito e achou que conseguiria escrever um. Para se testar, acabou escrevendo 4 livros, sem ter coragem de mandar para nenhuma editora, com medo de ser rejeitada (quando ela finalmente publicou as obras, fez sob o pseudônimo de Patricia Cabot, porque não queria que a avó lesse as cenas de sexo!).

Depois disso, Meg conseguiu um emprego como gerente assistente de um dos dormitórios  da New York University. Ela adorava porque “estava rodeada de jovens, e a maioria deles dormia até o meio-dia, todos os dias, então eu conseguia escrever durante as manhãs.” Com o emprego, ela podia frequentar algumas aulas da New York University e usou a oportunidade para estudar editoração e um pouco de escrita criativa.

Cartão de visita Meggin Cabot NYU
Recentemente, a Meg compartilhou no Facebook uma foto de seu antigo cartão de visitas.

Foi assim que ela escreveu o livro pelo qual ficou conhecida, “O Diário da Princesa”, que foi rejeitado por várias editoras.

Quando ela finalmente conseguiu um agente literário para ajudá-la no processo de publicação, a Disney ficou sabendo da existência do livro e comprou os direitos, antes mesmo que ele fosse publicado.

Sem manter as esperanças altas, já que muitos livros têm seus direitos comprados para o cinema, sem se tornarem filmes em si, a Meg continuou trabalhando no dormitório da New York University.

Quando o filme realmente estava prestes a ser lançado e a Disney enviou um cheque enorme para a escritora, ela finalmente pediu demissão. Naquela época, ela já estava trabalhando nos livros da Mediadora e já tinha vários outros contratos de publicação (Meg chegou a escrever 12 livros em um ano, gente!), que davam estabilidade financeira a ela.

Toda essa história pode ser lida no texto da Cosmopolitan escrito pela própria Meg. Há outro artigo no blog dela, com dicas de escrita. A principal delas é, adivinhe só, ter um emprego para pagar as contas. Ela também dá a estatística assustadora de que apenas 2% dos escritores publicados ganham dinheiro suficiente para viver somente de escrita. Como o texto é de 2003, vamos torcer para esse número ter aumentado, nem que seja só um pouquinho.

  • Vladimir Nabokov era um entomologista

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Quem diria que o escritor de “Lolita” trabalhava estudando insetos, hein? Um verdadeiro Gil Grissom.

Vladimir Nabokov não só era um entomologista, como era bem famoso e reconhecido no ofício. Ele trabalhou na Wellesley College e depois foi para Harvard, onde atuou como Curador da Coleção de Borboletas do Museu de Zoologia Comparada. Muito louco, não? Foi mais ou menos nessa época que a esposa de Nabokov o convenceu a publicar “Lolita”, em uma história parecida com a do Stephen King.

Nabokov também formulou uma Teoria da Evolução das Borboletas, que só foi comprovada em 2011, por meio de exames de DNA. Por essa eu não esperava!

  • John Green era capelão de um hospital de crianças

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Antes de se tornar um escritor, John Green estava estudando para ser pastor de uma igreja protestante. É sério.

Em 2000, por 5 meses, John Green foi o capelão de um hospital pediátrico, como parte do seu “Processo de Discernimento” – tipo de imersão espiritual que os que querem virar pastor devem fazer em hospitais, cemitérios e aeroportos. Ele fez esse processo pela University of Chicago Divinity School.

Algumas das personalidades dos personagens de “A Culpa é das Estrelas” foram, em parte, baseadas nessa imersão do Green. Se você tiver paciência de ver outra pessoa jogando videogame, o próprio autor fala sobre esse processo nesse vídeo aqui.

  • Margaret Atwoood era garçonete e caixa de uma cafeteria

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A escritora de “O Conto da Aia” é bem conhecida em países de língua Inglesa e agora está ganhando ainda mais popularidade.

O que pouca gente sabe é que, antes de ser escritora, Margaret Atwood era garçonete e caixa de uma cafeteria. A experiência foi terrível porque ela detestava o trabalho e os clientes grosseiros, e ainda era assediada por um ex-namorado, que ia até o estabelecimento só para olhar para cara dela. Tipo aquela mulher do Amélie Poulain, sabe?

Margaret escreveu sobre essa experiência em um conto chamado “Ka-Ching!” e nesse texto no blog dela.

  • Arthur Conan Doyle era médico

Médico

Ora, ora, ora, parece que temos um Xeroque Holmes aqui!!!

Conan Doyle se formou em Medicina pela University of Edinburgh e trabalhou por um tempo na Marinha Britânica, como médico da tripulação de navios.

Depois, em 1882, ele se estabeleceu em Southsea, Hampshire, e montou um consultório médico. Para passar o tempo entre um paciente e outro, ele escrevia histórias.

O primeiro livro de sucesso dele, “Um Estudo em Vermelho”, foi publicado apenas em 1887 e ele ainda demorou um pouco para largar a carreira de médico e se dedicar a ser um escritor em integralmente.

  • Douglas Adams teve mais empregos do que você pode imaginar

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De todos os escritores da lista, Douglas Adams, famoso pelo Guia do Mochileiro das Galáxias, é o que teve a carreira mais diversa e fascinante.

Ele trabalhou como porteiro de hospital, segurança de hotel e cuidador de galinhas, enquanto escrevia textos para programas de rádio e TV.

Mas, sem dúvidas, o trabalho mais exótico dele foi como guarda-costas de uma família multimilionária de magnatas do petróleo do Qatar.

  • Harper Lee trabalhava no guichê de uma companhia aérea

Atendente de Cia. Aérea

O Sol é para Todos” é um dos meus livros clássicos favoritos e deu à Harper Lee o Prêmio Pulitzer de Ficção, em 1961.

O que ninguém sabe é que, talvez, ele nem teria sido escrito, se não fosse por um presente generoso.

Explico: Harper Lee trabalhava reservando e emitindo passagens aéreas para a Eastern Airlines e tinha o sonho de se tornar uma escritora profissional. Tão grande era esse projeto que ela chegou a viajar para o Kansas, na companhia de Truman Capote, para ajudá-lo nas pesquisas e entrevistas de seu famoso livro de não-ficção “A Sangue Frio”.

Lee seguiu trabalhando na companhia aérea até que, em um Natal, recebeu um bilhete de seus amigos que dizia “Você tem um ano de folga do seu trabalho, para escrever o que quiser. Feliz Natal”. Junto ao cartão, havia um cheque com os salários equivalentes a um ano de serviço.

Foi nesse ano “presenteado”, que ela escreveu “O Sol é para Todos”.

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Antes de ser o escritor aclamado de mais de 60 livros, Stephen King se formou em Educação, na Universidade do Maine e teve diversos trabalhos. King trabalhou em uma lavanderia e em um posto de gasolina, mas seu ofício mais notório foi como zelador e faxineiro de uma escola de Ensino Médio.

A vista dos corredores e dos armários da instituição o inspirou a escrever a cena de abertura de “Carrie, a Estranha”, cujo rascunho ele jogou no lixo, depois de escrever 3 páginas. Por sorte, o texto foi descoberto por sua esposa, Tabitha, que convenceu ele a continuar escrevendo porque ela queria saber o que ia acontecer.

  • Suzanne Collins escrevia roteiros de TV de programas infantis

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Antes de ser conhecida no mundo todo pelo livro “Jogos Vorazes”, Suzanne Collins tinha uma sólida carreira como roteirista de programas infantis. Ela fez parte de vários projetos do Nickelodeon, incluindo “Clarissa explica tudo”, que era estrelado pela Melissa Joan Hart, de “Sabrina, Aprendiz de Feiticeira”. Ela também escreveu episódios de “Os Arquivos de Shelby Woo” e acredita-se que essas experiências tenham ajudado a construir a personalidade de Katniss Everdeen.

  • George Orwell era policial

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Andei lendo George Orwell, para a Revista Pólen, e ando um pouco fascinada com ele. Nascido Eric Arthur Blair, ele trabalhou como um policial da Polícia Imperial Indiana, em Burma. Ele protegia cerca de 200 mil pessoas e era reconhecido por seu “elevado senso de justiça”.

Depois disso, ele atuou como jornalista, em uma profissão um pouco mais próxima do trabalho de escritor.

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Sophie Kinsella é o pseudônimo de Madeleine Wickham. Assim como sua personagem Becky Bloom, Madeleine é jornalista, especializada na cobertura do mercado financeiro.

Por achar o trabalho “sem inspiração e nada empolgante”, ela escrevia livros para passar o tempo, durante o horário de almoço e a noite.

Antes de publicar “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”, ela já tinha escrito – e publicado! – outros 4 livros.

Madeleine também trabalhou com o marido em recitais de música. Enquanto ele cantava, ela o acompanhava no piano. Legal, né?

  • Rainbow Rowell era colunista de jornal

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Rainbow Rowell tinha uma profissão mais próxima do mundo da escrita, trabalhando como colunista do Omaha-World Herald por 10 anos. Na faculdade, ela se formou em três áreas: Jornalismo, Publicidade e Inglês.

Ela teve experiências nesses três campos, antes de se firmar como escritora.

Ela diz, “quando eu estava na faculdade, estudar Inglês sempre pareceu uma coisa extra, quase uma indulgência. Eu adorava a ideia de escrever ficção e até poesia, mas queria um trabalho que viesse com um seguro de saúde e um salário estável. Eu cresci em uma família pobre, então ser uma artista morte de fome tinha zero de apelo para mim.”

Preach, Rainbow, Preach.

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Antes de se tornar famoso por fazer todo mundo chorar com seus livros, Nicholas Sparks teve trabalhos diferentes. Ele, inclusive, tentou ir para a Faculdade de Direito, mas foi rejeitado. Ops.

Um dos trabalhos de Sparks foi vender produtos dentais por telefone. Diferente, né?

  • Agatha Christie era farmacêutica assistente

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Agatha Christie era uma das assistentes de farmacêutico sendo examinadas pela Cruz Vermelha, em 1917. Aparentemente, Agatha tinha grandes conhecimentos sobre drogas e venenos e isso ajudou-a em sua carreira como escritora.

Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914, Agatha Christie era uma das voluntárias do exército e passou 4 anos no auxílio às tropas feridas em um Hospital Militar em Devon, na Inglaterra.

Outro que figura no hall dos meus escritores favoritos, Dan Brown e eu temos uma coisa em comum! Nós dois frequentamos a Phillips Exeter Academy, em Exeter, New Hampshire.

Dan Brown era filho de um dos professores da escola preparatória (que também foi onde Mark Zuckerberg estudou) e praticamente cresceu no campus.

Alguns anos depois de se formar na Amherst College, Brown voltou para Exeter como professor de Inglês. Tudo bem que isso foi antes de eu nascer, mas se ele tivesse esperado uns, sei lá, 18 anos, eu poderia ter tido aulas com ele. Doido, né?

Dan Brown em fotografia tirada na escadaria da biblioteca Class of '45 da Phillips Exeter Academy
Dan Brown na escadaria da biblioteca da Phillips Exeter Academy. A foto é do fotógrafo Isaac Hernandéz que fez um relato sobre ela nesse link aqui.

Espero que essa lista sirva de inspiração para que você termine seus projetos e siga em frente com eles. Aquela frase que diz que o sucesso é 10% inspiração e 90% transpiração é pura verdade. Esses autores lutaram muito para chegar onde chegaram, só que a gente não viu nem metade desse esforço.

Gostou do post? Compartilhe ele nas redes sociais! Se fizer sucesso, quem sabe eu não faça um só com autores nacionais e suas profissões secretas? hehe

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

The Brief Wondrous Life of Oscar Wao – Junot Díaz

Capa de The Brief Wondrous Life of Oscar Wao

Nome: The Brief Wondrous Life of Oscar Wao

Autor: Junot Díaz

Páginas: 339

Editora: Riverhead Books

Idioma: Inglês avançado e algumas expressões em espanhol. Para quem não lê em inglês, “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao” foi publicado em 2015 no Brasil, pela Editora Record. Recentemente, eu vi uma edição desse livro na Nobel do Shopping Tatuapé, por apenas R$ 12.

“The Brief Wondrous Life of Oscar Wao” é, provavelmente, o livro mais difícil que li em inglês. Mais difícil até do que livros clássicos, como “Jane Eyre”, minha leitura do momento. Imagino que ele deva ser uma leitura complicada até para nativos desse idioma, porque contém expressões idiomáticas e trechos de conversas em espanhol (fiquei super curiosa em como a tradução desse livro para o português foi feita). O Prêmio Pulitzer que ele ganhou em 2008, como melhor ficção, não é à toa. Mesmo.

No livro, nós acompanhamos a vida de Oscar Wao. Hispânico, gordo, nerd e morador dos guetos de Nova Jersey… Aparentemente, não tem nada na vida de Oscar que seria motivo para um livro só dele.

“I saw my chance and eventually I took it. If you didn’t grow up like I did then you don´t know and if you don’t know it’s probably better you don´t judge.” p. 55

O que torna esse livro digno de atenção – e de uma leitura – são as diversas histórias anteriores – e posteriores – à existência de Oscar.

Nós seguimos a vida da mãe de Oscar e de suas aventuras na República Dominicana, em plena ditadura de Trujillo. Nós seguimos a vida da irmã de Oscar, cometendo quase os mesmos erros que a mãe. Nós temos a “avó de criação” da família, Nena Inca, que é personagem constante durante toda a narrativa e, por fim, algumas das aventuras de Oscar, que só no final começa a realmente ter uma vida.

As diferentes histórias têm certa ordem cronológica, mas é preciso ter bastante atenção porque os narradores mudam também. Cada capítulo, segundo Junot Díaz, vai mais e mais além na história da família.

“She could not abide, period, Everything about her present life irked her; she wanted, with all her heart, something else. When this dissatisfaction entered her heart she could not recall, would later tell her daughter it had been with her all her life, but who knows if this is true? What exactly it was she wanted was never clear either: her own incredible life, yes, a handsome, wealthy husband, yes, beautiful children, yes, a woman’s body without question.” p. 79

O único personagem da narrativa que, curiosamente, não conta sua própria história é Oscar, o assunto do livro. Os narradores vão se intercalando e é quase como um roteiro de documentário.

“I was the tallest, dorkiest girl in the school, the one who dressed up as Wonder Woman every Halloween, the one who never said a word. People saw me in my glasses and my hand-me-down clothes and could not have imagined what I was capable of.” p. 57

Estou lendo o Guia do Estudante de Atualidades, porque senti que precisava estar mais informada sobre o mundo e sobre os acontecimentos recentes. Nos capítulos sobre a Venezuela e a Colômbia, fiquei um pouco assustada com o pouco que eu sabia sobre a história desses dois países. Sério, pergunte-me sobre a Revolução Francesa e a Guerra de Secessão e eu provavelmente saberei te dar bons detalhes. Mas sobre a história dos nossos países vizinhos? Niente.

Por que eu digo isso? Porque um dos personagens principais do livro é a República Dominicana, país de origem da família de Oscar e para onde todos os membros da família vão para se refugiar dos acontecimentos dramáticos de suas vidas – nem todos ao mesmo tempo e sempre com razões diferentes.

“[…] the guaguas, the cops, the mind-boggling poverty, the beggars, the Haitians selling peanuts at the intersections, the mind-boggling poverty, the asshole tourists hogging up all the beaches, the Xica da Silva novelas where homegirl got naked every five seconds that Lola and his female cousins were cracked on […]” p. 277

O país governado por Trujillo tem um grande papel na história pessoal dos antepassados de Oscar. Ao longo da narrativa, informações são reveladas sobre a vida de cada um dos atores da família de Oscar. Seu avô e sua avó reais (Nena Inca é só uma avó de criação), sua mãe e seu pai… todos esses foram diretamente impactados pelo regime ditatorial e é incrível entender como tudo se encaixa.

Veja esse livro como um grande quebra-cabeças, ou uma cebola em que você vai removendo as camadas para entender o interior. Ao final da leitura, fiquei com vontade de reler o livro, para ver se eu tinha deixado algum detalhe escapar.

“You have the same eyes as your abuelo, his Nena Inca had told him on one of his visits to DR, which should have been some comfort – who doesn’t like resembling an ancestor? – except this particular ancestor had ended his days in prison.” p. 20

Para nós, os desinformados que não sabem de nada sobre a história da República Dominicana, Junto Díaz deixa excelentes notas de rodapé, que se estendem por duas, três páginas do livro, mas que ajudam a contextualizar o estado do país e da população naquela época.

Apesar de ter lido pouco, eu adoro escritores latino-americanos e o realismo fantástico que sempre aparece nessas histórias. Junot Díaz nasceu em Santo Domingo, mas foi criado em Nova Jersey e, mesmo assim, há um toque de literatura fantástica na narrativa. Só para deixar Oscar feliz.

Outra coisa fascinante é a presença do misticismo que só os latinos têm. Até mesmo orixás e superstições de azar e de boa sorte entram no meio da vida de Oscar e ganham um papel importante na narrativa. Só para garantir as coisas: Zafa

“Maritza, with her chocolate skin and narrow eyes, already expressing the Ogún energy that she would chop at everybody with for the rest of her life.” p. 14

Essa é uma leitura para aqueles que querem sair da zona de conforto e se desafiar um pouco mais, mas também para aqueles que sabem que, no final, você só está no lugar em que está hoje por conta de seus antepassados.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo