The Brief Wondrous Life of Oscar Wao – Junot Díaz

Capa de The Brief Wondrous Life of Oscar Wao

Nome: The Brief Wondrous Life of Oscar Wao

Autor: Junot Díaz

Páginas: 339

Editora: Riverhead Books

Idioma: Inglês avançado e algumas expressões em espanhol. Para quem não lê em inglês, “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao” foi publicado em 2015 no Brasil, pela Editora Record. Recentemente, eu vi uma edição desse livro na Nobel do Shopping Tatuapé, por apenas R$ 12.

“The Brief Wondrous Life of Oscar Wao” é, provavelmente, o livro mais difícil que li em inglês. Mais difícil até do que livros clássicos, como “Jane Eyre”, minha leitura do momento. Imagino que ele deva ser uma leitura complicada até para nativos desse idioma, porque contém expressões idiomáticas e trechos de conversas em espanhol (fiquei super curiosa em como a tradução desse livro para o português foi feita). O Prêmio Pulitzer que ele ganhou em 2008, como melhor ficção, não é à toa. Mesmo.

No livro, nós acompanhamos a vida de Oscar Wao. Hispânico, gordo, nerd e morador dos guetos de Nova Jersey… Aparentemente, não tem nada na vida de Oscar que seria motivo para um livro só dele.

“I saw my chance and eventually I took it. If you didn’t grow up like I did then you don´t know and if you don’t know it’s probably better you don´t judge.” p. 55

O que torna esse livro digno de atenção – e de uma leitura – são as diversas histórias anteriores – e posteriores – à existência de Oscar.

Nós seguimos a vida da mãe de Oscar e de suas aventuras na República Dominicana, em plena ditadura de Trujillo. Nós seguimos a vida da irmã de Oscar, cometendo quase os mesmos erros que a mãe. Nós temos a “avó de criação” da família, Nena Inca, que é personagem constante durante toda a narrativa e, por fim, algumas das aventuras de Oscar, que só no final começa a realmente ter uma vida.

As diferentes histórias têm certa ordem cronológica, mas é preciso ter bastante atenção porque os narradores mudam também. Cada capítulo, segundo Junot Díaz, vai mais e mais além na história da família.

“She could not abide, period, Everything about her present life irked her; she wanted, with all her heart, something else. When this dissatisfaction entered her heart she could not recall, would later tell her daughter it had been with her all her life, but who knows if this is true? What exactly it was she wanted was never clear either: her own incredible life, yes, a handsome, wealthy husband, yes, beautiful children, yes, a woman’s body without question.” p. 79

O único personagem da narrativa que, curiosamente, não conta sua própria história é Oscar, o assunto do livro. Os narradores vão se intercalando e é quase como um roteiro de documentário.

“I was the tallest, dorkiest girl in the school, the one who dressed up as Wonder Woman every Halloween, the one who never said a word. People saw me in my glasses and my hand-me-down clothes and could not have imagined what I was capable of.” p. 57

Estou lendo o Guia do Estudante de Atualidades, porque senti que precisava estar mais informada sobre o mundo e sobre os acontecimentos recentes. Nos capítulos sobre a Venezuela e a Colômbia, fiquei um pouco assustada com o pouco que eu sabia sobre a história desses dois países. Sério, pergunte-me sobre a Revolução Francesa e a Guerra de Secessão e eu provavelmente saberei te dar bons detalhes. Mas sobre a história dos nossos países vizinhos? Niente.

Por que eu digo isso? Porque um dos personagens principais do livro é a República Dominicana, país de origem da família de Oscar e para onde todos os membros da família vão para se refugiar dos acontecimentos dramáticos de suas vidas – nem todos ao mesmo tempo e sempre com razões diferentes.

“[…] the guaguas, the cops, the mind-boggling poverty, the beggars, the Haitians selling peanuts at the intersections, the mind-boggling poverty, the asshole tourists hogging up all the beaches, the Xica da Silva novelas where homegirl got naked every five seconds that Lola and his female cousins were cracked on […]” p. 277

O país governado por Trujillo tem um grande papel na história pessoal dos antepassados de Oscar. Ao longo da narrativa, informações são reveladas sobre a vida de cada um dos atores da família de Oscar. Seu avô e sua avó reais (Nena Inca é só uma avó de criação), sua mãe e seu pai… todos esses foram diretamente impactados pelo regime ditatorial e é incrível entender como tudo se encaixa.

Veja esse livro como um grande quebra-cabeças, ou uma cebola em que você vai removendo as camadas para entender o interior. Ao final da leitura, fiquei com vontade de reler o livro, para ver se eu tinha deixado algum detalhe escapar.

“You have the same eyes as your abuelo, his Nena Inca had told him on one of his visits to DR, which should have been some comfort – who doesn’t like resembling an ancestor? – except this particular ancestor had ended his days in prison.” p. 20

Para nós, os desinformados que não sabem de nada sobre a história da República Dominicana, Junto Díaz deixa excelentes notas de rodapé, que se estendem por duas, três páginas do livro, mas que ajudam a contextualizar o estado do país e da população naquela época.

Apesar de ter lido pouco, eu adoro escritores latino-americanos e o realismo fantástico que sempre aparece nessas histórias. Junot Díaz nasceu em Santo Domingo, mas foi criado em Nova Jersey e, mesmo assim, há um toque de literatura fantástica na narrativa. Só para deixar Oscar feliz.

Outra coisa fascinante é a presença do misticismo que só os latinos têm. Até mesmo orixás e superstições de azar e de boa sorte entram no meio da vida de Oscar e ganham um papel importante na narrativa. Só para garantir as coisas: Zafa

“Maritza, with her chocolate skin and narrow eyes, already expressing the Ogún energy that she would chop at everybody with for the rest of her life.” p. 14

Essa é uma leitura para aqueles que querem sair da zona de conforto e se desafiar um pouco mais, mas também para aqueles que sabem que, no final, você só está no lugar em que está hoje por conta de seus antepassados.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

O Nevoeiro – Stephen King

tripulação de esqueletos

Nome: Tripulação de Esqueletos (calma que eu já já explico)

Autor: Stephen King

Editora: Suma de Letras

Páginas: 133

Mas Mandariela, você trocou as bolas? Por que o título do livro é um e o nome que aparece embaixo é outro?

“O Nevoeiro” é um conto de Stephen King, que aparece em “Tripulação de Esqueletos”, uma coletânea dos contos desse escritor, publicada pela primeira vez em 1985. Ele é o primeiro conto do livro e é enorme, gente! É quase tão grande quanto alguns dos exemplares que coloquei na minha lista de livros para ler em um dia!

Acabei pegando “Tripulação de Esqueletos” emprestado na biblioteca do meu bairro, só porque vi que esse era um dos contos inclusos e porque eu estava com vontade de ler algo que me lembrasse um pouco “Stranger Things” (vem ni mim, 27 de outubro!).

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No começo, acompanhamos a história de David Drayton, de sua esposa, Stephanie, e de seu filho, Billy. Os três estão em sua casa de veraneio em um dia bem quente de julho, só na curtição das férias. Até que uma grande tempestade os atinge. A combinação de chuva e de ventos fortes derruba árvores e fios elétricos e David, Billy e Stephanie ficam isolados na casa, sem comunicação alguma. Nem mesmo o rádio funciona.

Por cima e um pouco além do lago que permeia a propriedade dos Drayton, David consegue observar um nevoeiro denso e branco, como ele nunca tinha visto antes.

Decidido a ir comprar suprimentos para aguentar o dia, caso a luz não volte, David parte com seu filho Billy e o vizinho Brent Norton, até o supermercado da cidade. E é lá que eles estão quando o nevoeiro os atinge.

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Coisas horríveis acontecem com aqueles que optam por atravessar o nevoeiro, na tentativa de alcançar os familiares que ficaram do lado de fora. Banhos de sangue, barulhos estranhos e vultos animalescos podem ser vislumbrados por quem ficou do lado de dentro do supermercado, sem que ninguém tenha certeza do que está vendo. Por conta da densidade do nevoeiro, não é possível saber com clareza o que está do outro lado.

Olha, eu não gosto de terror. Mesmoooo. Eu só li “O Nevoeiro” porque li resenhas recomendando ele como não muito assustador e porque estou tentando preparar meu psicológico para ler “It – A Coisa” (mesmo que eu não goste de terror, eu gostei do trailer!). Talvez, por isso, quando eu terminei de ler “O Nevoeiro” não dei continuidade aos contos de “Tripulação de Esqueletos” e devolvi o livro para biblioteca com alívio no coração.

Esse é um livro bem interessante para se estudar como o King constrói o suspense e a tensão de cada uma das cenas. É fascinante.

Uma vez eu li um conselho de escrita que dizia que você deveria pensar em um personagem, entender qual seria o maior sonho dessa personagem e, depois, descobrir o que de pior poderia acontecer com esse personagem, para evitar que ele atinja seus sonhos. É exatamente isso que King faz nessa narrativa.

Sendo sincera, eu não senti muito medo e algumas cenas me pareceram meio banais. A impressão que eu tive é que, por estarem num supermercado, King fez uso de vários personagens que estavam ali fazendo compras e, conforme o texto foi avançando, ele foi usando esses personagens para dar continuidade à narrativa. E isso foi legal, mas toda vez que eu achava que ele ia utilizar esses personagens para amarrar uma ponta solta, ele acabava largando essa ponta de lado e seguindo em frente (meu medo de dar spoiler é tanto, que eu estou até misteriosa!)

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Eu estava um pouco errada quando achei que esse livro seria parecido com Stranger Things. Não é não. No seriado, a gente entende o porquê das coisas acontecerem e as motivações por trás de tudo. Em “O Nevoeiro” não há explicações. Duas ou três suposições aparecem e são levantadas por King, mas nada de concreto, sabe? Por mais clichê que seja, ás vezes, aquele momento em que o vilão conta todo o seu plano maligno para o herói é necessário para dar mais vivacidade para o texto.

Durante a leitura, fiquei preocupada que virasse algo parecido com “Ensaio sobre a Cegueira”, do Saramago. Eu adorei a leitura do Saramago, mas abandonei o livro desesperada, quando a narrativa culminou em uma cena que mexeu comigo de tal forma que, até agora, só de lembrar, eu fico enjoada.

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Mas não, apesar de ser um terror que pende para a distopia, ele não envereda pelas narrativas mais complicadas ou pelos juízos de moral. Muito pelo contrário.

O final foi… decepcionante. Qual é?! Disseram que o final do filme foi melhor e diferente. Eu não vejo filmes de terror e nunca vou saber avaliar isso direito, mas acho que qualquer coisa seria melhor do que o final incompleto que ele deu. Se ele decidisse transformar isso num livro de uma vez por todas, talvez o final fosse um pouco mais interessante.

Sem querer dar spoilers, foi meio que uma coisa à la “A Procura da Felicidade” sabe?

Em 2007, o diretor Frank Daranbot produziu um filme inspirado por “O Nevoeiro”. E em 22.jun.2017, uma série de TV baseada no livro estreou no canal Spike, lá dos EUA.

Imagino que voltar a Paranapiacaba depois de ler um livro como “O Nevoeiro” vai ser uma tarefa muito difícil. Se você acha que narrativas como a do livro são totalmente de mentira e que “não é possível que algo assim aconteça na vida real,” tente ficar na cidadezinha depois das 16 horas, quando a noiva vem cobrir a cidade com seu céu. O documentário que eu produzi durante a faculdade ajuda a ter uma noção de como são as coisas por lá.

Esse tipo de livro sempre me deixa meio ansiosa ao lembrar que, em uma situação como essa, se eu perdesse meus óculos ou se algo acontecesse com eles, eu ia morrer muito rápido. Sou tão míope que só de ficar sem meus olhinhos, pelo menor período que seja, eu já fico com dor de cabeça. Eu totalmente ia me voluntariar para virar comida de monstro! lol

Recomendo para você que gosta de terror, que quer ler um clássico do mestre dos livros de terror e que, assim como eu, está procurando diversificar a lista de leitura e sair um pouquinho da zona de conforto.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

3 motivos para ver a série GLOW

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Vez ou outra eu assisto alguma coisa na Netflix que não é um documentário. Eu vi um trailer bem legal de “GLOW” em junho e fiquei com ele na cabeça. Quando percebi que a série estava disponível para ver, nem pensei duas vezes e cliquei.

Dividido em 10 episódios, “GLOW” foi baseado em um seriado americano homônimo, que foi ao ar em 1986.

Nele, nós acompanhamos a história de Ruth Wilder, interpretada por Alison Brie, a Trudy Campbell de Mad Men. Ruth é uma atriz que está em busca de um bom papel, para alavancar sua carreira. Cansada de interpretar secretárias, Ruth é convidada por sua empresária a ir até uma audição de um novo projeto independente, “Glow”.

Ao descobrir que Glow, ou Gorgeous Ladies of Wrestlig (Garotas Lindas da Luta Livre), se preferir, não é uma série ou uma novela e sim um projeto para uma espécie de WWE feminina, Ruth fica desanimada e aborrecida.

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Como se isso pudesse justificar algo (mas a gente sabe que não pode), Ruth acaba dormindo com Mark, o marido de sua melhor amiga, Debbie Eagan. Na verdade, no começo, a gente tem a impressão de que Ruth tem um pouco de inveja de sua amiga. A Debbie, também atriz, fez um papel de sucesso em uma novela e agora parou de trabalhar para poder cuidar de seu filho com Mark e ser uma dona de casa.

Decidida a deixar seu preconceito com a luta livre de lado, Ruth decide tentar uma nova audição para fazer parte da equipe de Glow. Durante a segunda audição, Debbie interrompe Ruth furiosa. A amiga descobriu a traição e está prontinha para dar a maior surra – de verdade e na frente das outras meninas selecionadas e do diretor- em Ruth.

Sabendo que poucas coisas podem fazer o programa sair do papel e que precisa de boas atrizes para poder ter um lucro, o criador e o diretor de Glow, Sam Sylvia, decide convidar Debbie para fazer parte do programa.

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“Glow” envolve uma série de storylines pessoais e gerais e isso deixa o seriado bem legal. Há os problemas para tirar o programa do papel e torná-lo um sucesso, há os problemas de Ruth e de Debbie individualmente, e de Ruth e de Debbie como amigas que viraram inimigas. Além de outros acontecimentos que deixam todos os 10 episódios interessantes.

Eu gostei porque eles fizeram bom uso do tempo disponível do seriado, sem precisar encher a história com “fillers”, aqueles episódios sem nenhum conteúdo, que não avançam a narrativa e que só servem para deixar a temporada com um número X de programas.

  1. Girl Power

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Duh, é um programa sobre mulheres fazendo luta livre ao maior estilo Hulk Hogan, no auge dos anos 80, com direito a polainas e tudo mais. Só isso já deixa o seriado interessante e inovador.

Mas as personagens escolhidas para participar do programa não encarnam nada do estereótipo de gostosonas, muito pelo contrário. Glow tem uma diversidade de cores, nacionalidades, corpos e histórias pessoais que é bem legal.

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É impossível não ficar intrigado com a história pessoal da Sheila, the She-Wolf. Ou de torcer para a família de Machu Picchu, aceitar que, assim como eles, ela é uma lutadora nata. Ou de tentar entender um pouco mais da Britânica e de admirar certas atitudes dela, ao botar machistas no lugar.

O relacionamento entre Debbie e Ruth também é muito, muito legal. As duas super amigas, que viram quase inimigas depois de Ruth dormir com o marido de Debbie, não tem escolha e têm que trabalhar juntas, como uma dupla. A forma como elas superam esse problema no relacionamento é muito bem desenvolvida.

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O treinamento físico das meninas é mostrado no seriado em si e isso ajuda a gente a entender todo o trabalho que elas tiveram para deixar as lutas bem realistas. A única atriz que tinha um histórico de já trabalhar com luta livre é a Kia Stevens, que interpretou a Tammé Dawson ou, se você preferir, The Welfare Queen. Antes, ela era conhecida como Awesome Kong.

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     2. Desenvolvimento de Personagens

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Uma das coisas que eu menos gosto é daqueles seriados em que um personagem X atravessa o inferno inteiro, luta com demônios e bruxas, tem que cometer atos de crueldade e, quando termina sua jornada, não muda em absolutamente nada.

É tão irritante isso!

Para tornar “Glow” um programa de TV de sucesso, todas as meninas, Sam Sylvia, o diretor, e Bash, o produtor, tiveram que trabalhar duro e enfrentar diversidades. No episódio final é possível ver como e o quanto as personagens evoluíram e mudaram por causa disso.

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Sam Sylvia, por exemplo, o diretor de filmes gore e desconhecidos aceitou ser o diretor de “Glow”, em troca de poder gravar o filme que quisesse depois. Primeiramente visto como um homem babaca, ele evolui, assume responsabilidades e dá apoio. É ele quem participa de dois dos plot twists que eu mais gostei da série. Um acontece no episódio 7 e me deixou numa vibe de “Ai meu Deus, e agora??? O que é que vai acontecer??” e o outro foi meio previsível, mas a reação dele foi excelente.

Senti que “Glow” evoluiu bem e trabalhou de maneira habilidosa com os personagens que tinha em mãos. O último episódio termina e, apesar da gente querer mais, ele realmente tem um fim. Nada que escritores habilidosos não conseguissem trabalhar sobre, para obter uma nova temporada. Mas adorei muito a sensação de encerramento e de poder imaginar o que ia acontecer com as personagens depois, sem ter que ficar afoita para uma nova temporada (não é, Stranger Things?)

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    3. Esse vídeo que o pessoal da Netflix fez com a Gretchen

Todo mundo sabe que o marketing da Netflix é sensacional, né?

O que eu acho bem legal de ver é que os escritórios regionais da Netflix tem uma liberdade grande para poder fazer o que quiserem. Eu já vi comerciais de Orange is the New Black estrelados pela Valeska Popozuda, Narcisa e pela Inês Brasil e outro de Stranger Things com a Xuxa, eles são hilários, mas que seriam impossíveis de se explicar (especialmente em termos de conceito) para uma equipe gringa.

Para divulgar Glow, o pessoal do Brasil convidou a Rainha do Bumbum, Gretchen, para participar do seriado, junto com Rita Cadillac, neste vídeo hilário. Sensacional! Toda vez que eu penso nele, eu fico rindo sozinha! hahaha

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Espero que goste da minha indicação de seriado para ver na Netflix! Será que você vai gostar de Glow tanto quanto eu gostei?

Beijoos, A Garota do Casaco Roxo

(Mais) documentários sensacionais para ver no Netflix

Eu avisei que estava vendo documentários como se estivesse bebendo coca-cola, não avisei?

Pois bem, reuni os melhores dos melhores que vi, na minha nova lista de documentários para assistir no Netflix (ou em qualquer outro lugar, não é?). Eu já tenho uma outra lista aqui no blog, com 5 documentários legais para ver no Netflix.

Paris is Burning

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Eu vi “Paris is Burning” porque apareceu na minha lista de sugestões, logo que terminei de ver todas as temporadas disponíveis de Ru Paul´s Drag Race.

“Paris is Burning” nos dá um olhar direto à cena LGBT do Harlem, nos anos 80. O filme estreou em 1991, mas levou cerca de 9 anos para ficar pronto.

Passando pelos bailes organizados pelas boates, pelos passos de voguing, pelas drag queens, até entrevistas gravadas na rua com os personagens, o documentário abre um mundo e uma cultura relativamente desconhecidos por mim. Se você achava que tudo começou com RPDR, como eu achava, sabe de nada, inocente! Prepare-se para uma lição de história! Acho que só aprendi o que é Shade mesmo com este documentário.

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Não importa se você é hétero, gay, ou qualquer outra coisa, “Paris is Burning” é uma análise cultural muito interessante.

Durante parte do filme, nós seguimos Venus Xtravaganza, que estava passando pelo processo de reatribuição do gênero. Em entrevistas gravadas na rua ou em seu quarto, conhecemos um pouco da vida de Venus, ouvimos ela contar sobre como sofreu transfobia em diversas ocasiões e sobre seus sonhos e anseios. Ao final do filme, descobrimos que Venus Xtravaganza foi assassinada de maneira brutal. Seu assassino nunca foi capturado.

Ainda que o filme não seja sobre Venus em si, ele fala com profundidade sobre os preconceitos que gays, drag queens, travestis e transexuais sofrem. De um pai que jogou fora todos os vestidos de drag do filho até o assassinato de Venus, essas histórias nos marcam e ficam para sempre na memória.

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Algumas acusações surgiram contra a diretora do filme, Jennie Livingston, e acredito que este artigo de Jorge Marcelo Oliveira explica bem os “poréms” do filme. Mesmo assim, acho um documentário importante, que merece ser visto.

A Um Passo do Estrelato

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Provavelmente, “A Um Passo do Estrelato” é meu documentário favorito da lista. Ele conta a história de gente que chega perto, muito perto do estrelato, mas que nunca ganham os spotlights: os cantores de apoio.

Ou backing vocal, se você preferir.

Com participações de Bruce Springsteen, Mick Jagger, Stevie Wonder, Sting e outros artistas, “A Um Passo do Estrelato” vira os refletores para os personagens secundários das maiores músicas da história. O filme ainda tem imagens de apoio de David Bowie, Ray Charles, Elton John, Michael Jackson, John Lennon, Tom Jones, Rod Stewart, Paul McCartney e tantos outros cantores que usaram backing vocal para dar profundidade às suas canções.

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O foco do documentário é jogado em Darlene Love, Merry Clayton, Tatá Vega, Janice Pendarvis, Lisa Fischer e Judith Hill. A narrativa se apoia nessas personagens para contar um pouco da história dos backing vocal e de como a música evoluiu através do trabalho delas (e deles também!)

Uma das histórias que mais me fascinou foi a de como fizeram os backing vocals de “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones. Por algum motivo que só Deus conhece, eu achava que era o próprio Mick Jagger que fazia aquela voz sensacional, gritando “Rape, murder yeah, it´s just a shout away”. Mas não, Merry Clayton é a responsável por isso.

No documentário, ela conta que estava grávida e que era tarde da noite, quando ela recebeu uma ligação de um produtor local, que dizia que a banda dos “rolling qualquer-coisa” precisava de uma mulher para fazer uma voz de fundo. Merry já estava de pijama de seda e casaco de pele, com rolinhos no cabelo, cobertos por uma écharpe da Channel. E foi assim que ela gravou o vocal, em duas meras passadas.

O vídeo abaixo explica um pouquinho mais a fundo:

De cair o queixo, não? 

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“Você tende a se perguntar se há uma forma de sair dessa profissão ou dessa vida sem morrer de coração partido”

Aqui vai o trailer completo do documentário:

Betting on Zero

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Ugh, esse documentário me deixou tão brava!!!! Toda vez que eu penso nele, eu fico mais brava ainda!!!

“Betting on Zero” é um documentário que conta um pouco da história da empresa Herbalife, para além dos shakes e suplementos vitamínicos que eles vendem. Através de vídeos e depoimentos de vítimas, o diretor Ted Braun busca mostrar que os verdadeiros lucros da empresa não vêm da venda lícita dos produtos para quem quer ter uma vida saudável, mas sim, de um esquema de pirâmide.

Chame de Marketing Multinível ou do que for, o documentário mostra depoimentos de várias pessoas que caíram no esquema, gastaram rios de dinheiro e criaram “Clubes de Nutrição” com o objetivo de recrutar novas pessoas para realizar o mesmo trabalho e assim por diante. Sem nunca receber um centavo de volta e sendo muito prejudicadas por causa disso.

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Nós seguimos a história de um grupo de latinos que moveu uma ação em conjunto contra a empresa. Também seguimos a história de Bill Ackman, um hedge fund manager que investiu mais de 1 bilhão de dólares (não, não foi ele quem financiou o documentário) na tentativa de fazer com que a empresa fosse investigada pelo governo americano, porque acreditava que o fim da Herbalife seria bom para todo o mercado econômico dos EUA. Além disso, ele acredita que, por ser financiada através do engano de outras pessoas, a Herbalife não seria uma empresa legítima.

Por fim, o documentário mostra a participação de Carl Icahn, um investidor que decide dar rios de dinheiro à Herbalife, pela pura razão de detestar Bill Ackman. Icahn acabou sendo nomeado por Donald Trump como Assessor Especial da Presidência para a Reforma Regulatória.

Um verdadeiro drama, para ser sincera.

O documentário é bem recente e alguns dos acontecimentos nele datam de março de 2017, o que é uma raridade. É difícil encontramos documentários tão atuais assim no Netflix. Outro ponto a favor é de que, apesar de mostrar muito da vida do Bill Ackman e das atitudes dele em relação à empresa, o documentário tem o mérito de mostrar um outro lado e de questionar as verdadeiras intenções de Ackman. Esse é um dos filmes mais imparciais que já vi, apesar de denunciar um comportamento ilícito.

Em tempos de crise financeira, com o Brasil chegando a 14 milhões de desempregados (para vocês terem uma ideia, ainda que o tempo tenha passado e que as coisas sejam bem diferentes, na época em que Hitler foi eleito na Alemanha, eles tinham cerca de 7 milhões de desempregados), é bem comum que as pessoas estejam desesperadas em busca de alternativas. Anúncios sobre “ganhe dinheiro fácil, sem sair de casa” pipocam por todo lado e quase todo mundo quer te oferecer coisas da Hinode ou um novo esquema da Polishop, para o qual me convidaram dias atrás. A relevância do documentário atualmente é enorme.

O grupo de latinos foi o que mais me tocou e o que mais me enfureceu. Sem falar inglês e muitos sendo imigrantes ilegais, eles sofreram inúmeros prejuízos e não podem denunciar a Herbalife porque ela denuncia a ilegalidade deles. Os casos reais mostrados no filme acabam te emocionando e é impossível não sentir empatia ou pena dos que foram lesados pela empresa. Há uma seção inteira no site oficial do documentário que mostra as tentativas da Herbalife em silenciar o documentário.

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Eu não sei como é que a Herbalife atua no Brasil, mas, sinceramente, acho que nem quero saber. O pior de tudo é que muitas pessoas têm noção de que o que estão fazendo é ilegal e quem ficar na parte debaixo da pirâmide irá desmoronar e ser prejudicado. E mesmo assim, seguem fazendo sem nenhum escrúpulo, só querendo conseguir mais e mais dinheiro, ainda que para isso tenham que enganar terceiros.

“Betting on Zero” acaba te ensinando muito sobre principios econômicos e te fazendo perder um pouco de fé na humanidade.

Being George Clooney

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Outro documentário que está entre os mais divertidos que já vi, em conjunto com “A Um Passo do Estrelato”. Uma das coisas mais legais sobre ele é que o projeto foi quase todo financiado através do Kickstarter.

Being George Clooney aborda diretamente outro trabalho que também pode ser invisível, mas que é essencial para a indústria do entretenimento. Afinal de contas, atire a primeira pedra quem nunca ouviu um “Versão Brasileira, Herbert Richers”, antes de ver um filme, né? Aliás, recomendo que você não clique nesse vídeo. Ele apareceu enquanto eu pesquisava mais sobre esse documentário e agora a música não sai mais da minha cabeça.

Em “Being George Clooney”, o mundo dos dubladores ganha cores e faces e sotaques.

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A princípio, os nomes Marco Antonio Costa, Rajesh Kattar, Martin Umbach, Tamer Karadagli e Francesco Pannofino não parecem ter nada em comum. Os tipos físicos, sotaques e rostos são completamente diferentes. Mas os 5 são os responsáveis por emprestar suas vozes para o ator George Clooney e fazem o trabalho de tornar o ator ainda mais sexy e galã, só com o vozeirão.

Marco Antonio Costa é o dublador brasileiro do George e, além disso, ele é médico. Sério. A história apresentada no documentário é super interessante. Na época das filmagens de “E.R.: Plantão Médico”, as traduções dos termos médicos não ficaram muito boas. Marco Antonio foi convidado para ajudar eles com isso e, de quebra, fez também a voz icônica.

Outros dubladores brasileiros também participam do doc, além de especialistas que ajudam a explicar porque a dublagem é um sucesso em determinados países, como a Itália.

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Dublador italiano de George Clooney, Francesco Pannofino

Eu amei a participação da Sheila Dorfman, que é a dubladora brasileira da Sandra Bullock. Eu cresci vendo os filmes da Sandra Bullock direto na TV, no dublado mesmo, e achei bizarro quando ouvi a voz em inglês da Sandra e descobri que não era a voz da Sheila. A Sheila Dorfman faz uma fala muito interessante no documenário, sobre a estranha intimidade entre os dubladores e os atores dos filmes. Eles acabam conhecendo tudo, até mesmo a forma como os atores costumam respirar. A Sheila também dubla a Paola Bracho, Usurpadora, a Lorelai, de Gilmore Girls, a Mônica, de Friends e a Xena!  haha Haja diversidade!

“Being George Clooney” é um documentário a ser visto quando se quer relaxar ou distrair um pouco a cabeça. Qualquer pessoa que viu um filme dublado alguma vez vai amar descobrir os bastidores dessa profissão.

Espero que gostem da minha seleção de 4 documentários interessantes para ver no Netflix. Eu ia escrever mais, sobre outros documentários. Mas vi o tamanho do post e acabei decidindo parar nesses 4 mesmo. Prometo que teremos mais versões deste post no futuro próximo do blog.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

Morte em Terra Estrangeira – Donna Leon

MORTE EM TERRA ESTRANGEIRA

Nome: Morte em Terra Estrangeira

Autora: Donna Leon

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 360

Esses dias eu fui na biblioteca do meu bairro (olha só o que o desemprego está fazendo comigo!!!), em busca de um livro para um dos meus próximos textos da Revista Pólen. É claro e óbvio que acabei saindo de lá com mais do que aquilo que fui atrás. “Morte em Terra Estrangeira” foi um desses livros.

Um corpo aparece boiando em um dos canais pitorescos de Veneza. O comissário Guido Brunetti é chamado no meio da noite para verificar o local do crime. Nos bolsos do cadáver, Brunetti encontra apenas alguns centavos de dólar, que sugerem que o corpo pode ser de um dos turistas que invadem a cidade.

Mas, o que parece ser um simples latrocínio acaba virando uma trama complicada. Ainda mais quando Guido descobre que o cadáver é o de um funcionário do governo americano, que estava estacionado na Base Militar americana de Vicenza.

Brunetti também é o responsável por identificar o responsável pelo assalto da mansão de um poderoso e perigoso comerciante de armas. De lá, levaram quadros de pintores famosos e jóias, mas será que o poderoso dono da mansão é apenas uma vítima mesmo?

Esse livro não foi particularmente bom, mas não pude deixar de me encantar com ele. Originalmente publicado em 1991, o livro foi traduzido pela Companhia das Letras e publicado por aqui apenas em 2004. É o segundo, de uma série de 26 (!!!) livros.

“O cadáver estava boiando de bruços na água turva do canal. A vazante o arrastava lentamente em direção à amplitude da laguna que se espraiava além da barra. A cabeça bateu algumas vezes nos degraus limosos da amurada em frente à Basílica de San Giovanni e Paolo, enroscou-se um momento, mas não tardou a se afastar quando os pés, num delicado movimento dançante, traçaram um arco que se desprendeu, e o corpo volto a se deslocar rumo à vastidão e à liberdade”.

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Basicamente, esse livro é mais velho do que eu e não é particularmente um clássico, então ele me pareceu extremamente datado. Em um dos momentos, Guido tem que descobrir uma série de informações sobre um determinado produto químico. Na era pré-internet ele vai até uma livraria e compra três livros diferentes sobre o assunto. Guido também comenta repetidas vezes que sua esposa, Paola, não se importa se ele não dá satisfações de seu paradeiro, também, na era pré-celular, é bem mais fácil.

O ritmo é bem lento e, às vezes, o livro parece se arrastar. Achei isso bem curioso. Apesar de ser um thriller policial, um desses livros de investigação criminal que eu adoro, fico me perguntando se realmente as aventuras de Guido são mais lentas ou se, atualmente, as coisas correm muito rápido e a gente quer que os livros sejam rápidos também.

Esse livro não é aquele Dan Brown, de te deixar na pontinha da cadeira, querendo saber o que vai acontecer. Os mistérios também não são muito misteriosos e eu gostaria de que ele fosse um pouco mais aprofundado, de que ele tivesse um tchãn extra, sabe? O final é meio decepcionante e abrupto e dá para sentir que Brunetti fica bem frustrado com isso, assim como leitor.

As descrições de Veneza e da Itália (ainda na época em que as máfias mandavam em tudo, se é que ainda não mandam, né?) são bem interessantes. Apesar de Veneza ser, acima de tudo, uma cidade turística, Donna Leon consegue trazer uma cidade de cartões-postais para a vida, mostrando seus defeitos e suas zonas mortas. Fiquei com vontade de acompanhar a leitura pelo Google Maps, só para entender melhor os percursos de Brunetti.

Veneza barcos laguna

De qualquer forma, eu gostei da leitura. Na biblioteca do meu bairro tem um outro livro da mesma autora “Morte no Teatro La Fenice”, que é o primeiro da série, na verdade. Acho que, se ainda estiver no clima para livros de investigação, posso dar uma chance para ele, quando for devolver este daqui.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

Livros de não-ficção para quem gosta de história

A Capital da Vertigem, A Face da Guerra, A Vida Imortal da Henrietta Lacks, O Instante Certo

Hoje é Dia da Imprensa. A data passou a ser “comemorada” em 1999 e marca o primeiro dia de circulação do jornal Correio Braziliense, fundado em 1808, por Hipólito José da Costa. Pensando em encontrar uma forma de celebrar a data, achei que seria legal fazer uma lista de livros reportagem e coisa e tal. Achei que seria legal incluir Gay Talese, Truman Capote e gente que já li.

Mas depois de dar uma pensada, percebi que marcar o Dia da Imprensa com obras jornalísticas seria um pouco clichê. Por isso, decidi listar livros que não deixam de ser livros-reportagem, mas que superam isso e viram obras de não-ficção. São narrativas que foram escritas após anos de pesquisa, dedicação e suor. Todos os autores reunidos são jornalistas que, acima de tudo, são testemunhas da história.

  1. A Vida Imortal de Henrietta Lacks, de Rebecca Skloot

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Quem me conhece sabe que eu quase nunca leio um livro duas vezes. Convenhamos, a vida é curta e a lista de livros é interminável. Aproveito o meu tempo lendo livros novos e só dedico um tempinho extra para aqueles que me marcam mesmo e que mudaram minha forma de pensar de alguma forma. Pois bem, eu li “A Vida Imortal de Henrietta Lacks” duas vezes.

O livro conta a história de Henrietta Lacks, negra e moradora de Maryland, nos EUA de 1951. Henrietta sofre de uma forma particularmente agressiva de câncer. Os médicos retiram parte do seu tecido canceroso e para realizar uma biópsia e… As suas células continuam a se reproduzir, se colocadas em um meio de cultura correto e mantidas na temperatura certa. As células de Henrietta acabam por solucionar um grande problema da medicina. Algumas pesquisas e tratamentos não podiam ser feitos, simplesmente porque não podia ser testados. Com as células HeLa, como ficaram conhecidas, todo o problema é solucionado e uma indústria milionária é formada, sem que a família Lacks, muito humilde, saiba de qualquer coisa.

“Nos anos 1960, os cientistas diziam, brincando, que as células HeLa eram tão robustas  que provavelmente conseguiriam sobreviver em ralos de pia ou em maçanetas de porta. Estavam por toda parte. O público em geral podia cultivar células HeLa seguindo as instruções de um artigo tipo faça você mesmo da Scientific American, e tanto os cientistas russos como os americanos haviam conseguido cultivá-las no espaço.”

p. 180

O livro transcende a história de Henrietta, que, por si só, já é fascinante. Dos campos de tabaco em que ela costumava trabalhar na colheita, durante a infância, até a vida de Deborah, sua filha, sempre perturbada por conta das células. Rebecca Skloot passou 10 anos acompanhando a vida da família Lacks e o livro não deixa de ser um pouco sobre a própria jornalista.

Recentemente, “A Vida Imortal de Henrietta Lacks” foi adaptado para o cinema, pela HBO, tendo Oprah Winfrey como a protagonista, Deborah Lacks. Eu ainda não pude ver o filme, porque sou pobre e não tenho HBO, mas adoraria vê-lo um dia.

Henrietta e Rebecca, em um still do filme
Deborah Lacks e Rebecca Skloot, em uma imagem do filme

“A Vida Imortal de Henrietta Lacks” é, majoritariamente, um livro de jornalismo científico, mas não deixa de ser um livro que aborda diretamente o cenário dos EUA do século passado, principalmente nas relações raciais em si. Henrietta Lacks é uma das mencionadas nesse texto sobre 5 biografias de mulheres fortes, que eu escrevi para a Revista Pólen.

  1. A Face da Guerra, de Martha Gellhorn

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O fim da faculdade costuma ser um período de reflexão. A gente fica olhando para trás, pensando nas nossas decisões e no que nos levou a tomá-las. Bate uma certa nostalgia e a gente não consegue deixar de se perguntar “E aí, será que eu fiz a coisa certa?”. Comigo, pelo menos, está sendo assim. Todo mundo diz que isso é normal, que acontece com qualquer um, mas não deixo de estranhar o porquê de ninguém falar sobre esse assunto diretamente.

De qualquer forma, quem me convenceu a fazer jornalismo e a perseguir isso como carreira (ainda que eu esteja desanimada, nos últimos tempos) foi Martha Gellhorn. Com sua vida fascinante, sua relação amorosa com um escritor americano bem famoso do século passado – que vira nota de rodapé sempre que eu falo dela, Martha Gellhorn é a maior jornalista de guerra com quem já tive contato.

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Martha voltando aos EUA, depois de uma temporada na Europa.

Martha realizou a cobertura de quase todas as guerras do século passado, começando pela Guerra na Espanha, até a Invasão do Panamá. Também são abordados a Guerra dos Seis Dias, a Guerra do Vietnã e a Segunda Guerra Mundial, particularmente em um texto chamado Dachau, que foi meu primeiro contato com a autora e que conta um pouco do estado do campo de concentração de Dachau, logo após sua liberação. Falo mais sobre “Dachau” neste post que escrevi para a Revista Pólen, “Guerra e Registro: Martha Gellhorn”.

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Do seu marido-escritor, com quem ela casou em 1939 e se divorciou em 1945 (exatamente o tempo de duração da Segunda Guerra Mundial), Martha ganhou um livro dedicado a ela: “Por quem os sinos dobram”

Martha estava lá, presenciou e viu os horrores da guerra com seus próprios olhos e, talvez, por esse mesmo motivo, ela fosse uma pacifista totalmente contra a guerra. O texto é fascinante e é melhor do que qualquer filme hollywoodiano para te dar uma noção, em cores e alta definição, sobre como era realmente estar em uma guerra.

“Um menino chamado Paco estava sentado em sua cama com grande dignidade. Tinha 4 anos, um grave ferimento na cabeça e era lindo. Ele foi atravessar uma praça para se encontrar do outro lado com uma menininha com quem brincava à tarde. Então, uma bomba caiu. Muitas pessoas foram mortas e ele foi ferido na cabeça. Ele havia suportado sua dor silenciosamente, disse a enfermeira. O ferimento já tinha cinco meses. Ele sempre fora paciente com o ferimento e, à medida que os meses passavam, tornava-se mais solene e mais adulto a cada dia. Às vezes, chorava sozinho, mas sem fazer nenhum som, e, se alguém reparava, ele tentava parar.”

p. 54

“A Face da Guerra” deveria ser leitura obrigatória neste século e, ainda assim, muitos jornalistas que conheço sequer ouviram falar de Martha Gellhorn.

“Atrás do arame farpado e da cerca eletrificada, os esqueletos sentavam ao sol e catavam piolho neles mesmo. Eles não têm idade e não têm rostos; todos eles se parecem e não são como nada que você vai ver se tiver sorte.”

p.203

Seus textos foram todos escritos no século passado (ela cometeu suicídio em 1998), mas não consigo deixar de sentir um arrepio, toda vez que leio notícias sobre nossas guerras contemporâneas, em especial a da Síria, e consigo traçar paralelos entre os textos de Martha e os acontecimentos de hoje. Já dizia Edmund Burke, “quem não conhece a história, está fadado a repeti-la”.

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  1. A Capital da Vertigem, de Roberto Pompeu de Toledo

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“A Capital da Vertigem: Uma história de São Paulo de 1900 a 1954” é um livro que me deixou sem fôlego, na primeira vez que o vi na livraria.

Eu adoro história e adoro histórias de cidade. Acho horrível andar pelo centro velho da cidade e ver prédios com uma arquitetura peculiar e ruas com nomes conhecidos e disseminados por todo o país, sem saber ou ter a mínima noção de onde aquilo saiu e do porquê certas coisas são como são.

Me arrependi um pouco da forma como li “A Capital da Vertigem”. O livro tem mapas, fotografias, títulos de capítulos com nomes peculiares e pode ser lido como um romance, sem nenhuma dificuldade. O texto é bem fluído e usa técnicas de storytelling, usando personagens históricos para explicar trechos da história da cidade de São Paulo. Eu devo ter devorado suas 579 páginas em umas duas semanas.

“Mil novecentos e vinte foi um ano difícil para Mário de Andrade, o jovem professor de Estética e História da Música do Conservatório que encontramos ao final do capítulo VIII. Gastava o que tinha e o que não tinha na compra de livros e por isso vivia enrascado em problemas de dinheiro. Sentia esgotadas as experiências poéticas com bem-comportados versos parnasianos mas não conseguia encontrar o novo caminho e a nova voz pelos quais ansiava.”

p. 213

“A Capital da Vertigem” é, com certeza, um livro que irei reler, com mais calma de preferência. Seu antecessor, “A Capital da Solidão”, que conta a história da cidade de São Paulo de 1554 até 1900, é muito interessante e recheado de fatos históricos. Eu tive um pouco de dificuldade para lê-lo, talvez pela distância histórica entre os acontecimentos passados dois, três séculos atrás. Eu também quero comprar a edição de “A Capital da Solidão”, porque comprei a versão econômica do livro e acho que isso me atrapalhou um pouco.

É o livro ideal para quem quer saber mais sobre sua própria cidade, ou sobre como se desenvolveu a cidade (olha o meu bairrismo aí, gente!) mais importante do país.

            4. O Instante Certo, de Dorrit Harazim

o instante certo

Quem sou eu para falar de Dorrit Harazim, não é mesmo? Ela é a jornalista contemporânea que mais admiro e seus textos sempre têm a capacidade de me transportar. Por vezes, quando ergo os olhos deles, me sinto temporariamente perdida, sem saber direito em que época ou onde estou.

Terminei de ler “O Instante Certo” poucas semanas atrás, com a sensação de que o livro poderia ter mais milhares de fotos e eu iria aproveitar com felicidade cada uma delas.

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American Girl in Italy, Florence, de Ruth Orkin é umas das imagens que aparece no livro e cuja história, realidade e bastidores são revelados.

Esse poderia ser um simples livro de fotografia, daqueles de pôr na mesinha de centro, para as visitas te acharem culta, ou poderia ser um tratado sobre técnicas, jogos de luzes, focos, lentes, aberturas de diafragmas, ISO e tudo mais que envolve uma boa foto. Mas ele vai muito além.

Dorrit resgata as histórias envolvidas nas fotos. Não importa se é a história pessoal do fotógrafo, a história do protagonista da foto ou da pessoa que está no plano de fundo. Não importa se é o cenário histórico que é realmente importante, como as fotos que falam do Apartheid e das violências no sul dos Estados Unidos, em plena era Jim Crow, ou as imagens de Sebastião Salgado, do atentado contra o presidente Ronal Reagan.

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“The Most Beautiful Suicide”, de Robert C. Wiles, abre o livro revelando a história da protagonista da foto e de quem realizou a imagem.

A jornalista selecionou fotos que já são peculiares ou interessantes por algum motivo e fez o impossível: deu vida ao que estava congelado e deu cor ao que estava em preto e branco. Cada foto presente no livro tem seu próprio capítulo e alguns são super curtos, com duas ou três páginas, outros, como o capítulo que fala sobre Sebastião Salgado, são enormes.

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Há um capítulo inteiramente dedicado aos fotógrafos dos presidentes dos EUA. O trabalho de Pete Souza, de registrar a Era Obama, tem grande destaque.

Diferente dos outros livros já mencionados na lista, “O Instante Certo” não está concentrado em um único ano, em uma determinada época ou localidade geográfica. Através dos 5 continentes, em diversas eras históricas, na época das fotos analógicas ou digitais, o livro de Dorrit é uma grande viagem.

A única coisa que senti falta foi uma bibliografia no final do livro. Imagino que a pesquisa deve ter sido bem extensa e gostaria de saber que livros foram utilizados para encontrar essas informações, já que, muitas vezes, eu gosto de ir atrás desses mesmos livros, em busca de mais coisas interessantes. Além disso, durante os capítulos, Dorrit menciona uma série de escritores e de livros e eu adoraria tê-los reunidos em um só apêndice.

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A imagem que Sebastião Salgado fez, do atentado contra a vida do presidente Ronald Reagan é usada para introduzir um pouco da vida e da história do maior fotógrafo brasileiro.

Com frequência, eu resenho livros de não-ficção aqui no blog. Se você gostou dessa lista, também poderá gostar de livros como O Demônio na Cidade Branca, A História do Brasil nas Ruas de Paris, Pepitas Brasileiras e  O Mundo das Múmias.

Você conhece algum livro de não-ficção legal para me recomendar? Deixe o nome nos comentários! Quem sabe não aparece uma resenha dele por aqui?

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

Filmes que Vi #20

Confesso que vi “Marguerite” e “Bem-vindo a Marly-Gomont” faz tempo. Na verdade, eu estava esperando para fazer uma master-list de filmes em francês, que são contemporâneos (por mais que eu ame, não colocaria Amélie Poulan nessa lista) e que, o principal, estão disponíveis no Netflix.

Mas… eu empaquei nos filmes. Comecei de novo nessa onda de ver documentários e com tanto seriado legal novo (vi toda “Girlboss” em uma noite e ainda estou digerindo), deixei os filmes meio que de lado e optei por parar com essa de enrolar meus textos.

Marguerite

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Dirigido por Xavier Giannoli e estrelado por Catherine Frot (que também fez “Os Sabores do Palácio”, disponível no Netflix e que eu pretendo ver assim que tomar vergonha na cara). “Marguerite” conta a história de Marquerite Dumont, uma mulher rica que ama as artes e a música. Ama tanto, mas tanto, mas taaaanto, que convenceu a si mesma de que é uma excelente cantora. Só que não.

Marguerite é mais desafinada que o grito de um porco que está tendo seu rabo torcido. É capaz de quebrar taças, não com sua potência vocal, mas porque as taças decidiram sair deste mundo cruel através do suicídio. E a pobre coitada também não tem nenhum amigo, capaz de dizer a ela a verdade.

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A questão é que ela é muito rica e, na Paris dos anos 20, riqueza é sinônimo de influência. Ninguém quer entrar na lista negra de Marguerite ao dizer para ela que ela é uma péssima cantora.

O marido e os funcionários da casa de Marguerite ajudam-na a nutrir sua ilusão. Os convidados das pequenas soirées que ela organiza em sua casa, também aplaudem e sorriem, sob tortura.

Tudo vai bem e o segredinho obscuro da alta sociedade parisiense está bem escondido, até que… Marguerite, influenciada por um jornalista sarcástico e que precisa de dinheiro, decide amplificar seu talento a máximo, com a ajuda de um treinador e professor, e se apresentar em público, para todo mundo ouvir.

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TAN TAN TAN.

Esse filme tem algo de cômico e de engraçadinho, parece até um quadro dos Trapalhões ou coisa do tipo. Mas é um drama bem triste e, quanto mais eu pensava na situação de Marguerite, menos engraçado eu encontrava seus agudos e seus gritos desesperados.

O nível de francês é bom para quem tá começando, porque eles falam relativamente devagar. Ainda mais que é um filme de época, né? Mas, recomendo que não o vejam usando fones de ouvido, porque meu ouvido chegou a doer, nas cenas de canto de Marguerite. E olha que eu gosto de música clássica.

O mais legal é que a história, por mais bizarra que possa parecer, foi inspirado em uma vida real. Florence Foster Jenkins também era uma mulher rica, que adoraria se tornar uma cantora de ópera, apesar de não ter voz para isso.

Um segundo filme sobre a vida de Florence Foster Jenkins foi feito, estrelado por Meryl Streep. “Florence: Quem é essa mulher” é só um pouco diferente de “Marguerite”, se passa em Nova York, por exemplo, mas eu ainda não vi para poder comentá-lo.

Trailer de “Florence: Quem é essa mulher”:

Bem-vindo à Marly-Gomont

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“Bem-vindo à Marly-Gomont” conta a história de um estudante de medicina, natural do Zaire, Seyolo Zantoko, que é interpretado por Marc Zinga.

Depois de formado, Seyolo recusa a oportunidade de voltar para sua terra natal e trabalhar para a aristocracia de lá. Ao invés disso, ele decide ficar na França e ser o médico responsável pelo vilarejo Marly-Gomont.

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Junto com sua família – a esposa e dois filhos – Seyolo tem a difícil função de ganhar a confiança do vilarejo, se integrar e ser feliz em um ambiente bem racista, xenofóbico e provinciano. O filme se passa nos anos 80 e é baseado em uma história real, quem escreveu a história foi o filho de Seyolo.

Apesar dos temas abordados, o filme é muito leve e, ao invés de pender para críticas ao racismo e a xenofobia do povoado, ele usa o humor para exemplificar as situações. O horror da cidade quando os parentes barulhentos de Seyolo chegam em meio à uma celebração solene é hilário. As ligações entre Seyolo e a comunidade vão se desenvolvendo aos poucos e o filme acaba virando uma comédia leve.

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Há uma certa redenção, perto do final, mas não achei ela muito verídica. Talvez, se o filme fosse um pouquinho mais longo, eu conseguisse entendê-los um pouco melhor.

De qualquer forma, o filme é agradável e despretensioso e pode ser visto sem medo de ser feliz. O nível de francês é um pouco mais alto que o de Marguerite, porque eles falam super rápido. Além disso, há trechos em Lingala, a língua do Zaire, que também são super engraçados.

E aí, tem mais algum filme em francês no Netflix que eu deveria estar vendo? Alguma sugestão?

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

6 livros para ler em um dia

livros pequenos

Se você é como eu, provavelmente estabeleceu uma meta de leitura ambiciosa no Goodreads. Escolhi ler 60 livros esse ano e amo que a plataforma te mostra o quanto da sua meta já foi cumprida (35%), mas detesto que também mostre se você está atrasada nas leituras – o que significa que você pode não cumprir seu objetivo, se continuar nesse ritmo.

No momento, estou lendo 2 livros diferentes e estou para trás em um título. Jessica Woodbury, do Book Riot, fala exatamente sobre essa nossa obsessão com o Goodreads e as metas de leituras. Basicamente, ela escreve: “Como uma pessoa que realmente não pratica esportes, mas que lê como se minha vida dependesse disso, talvez minha obsessão seja melhor explicada através de metáforas esportivas. O Reading Challenge é meus Jogos Olímpicos. Não ter livros atrasados significa que estou no ritmo certo, estar atrasada significa que minha medalha pode estar fora do meu alcance, é ganhar ou morrer; fazer ou quebrar; é hora de ir com tudo.”

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Eu não estou realmente em uma ressaca literária, mas estou lendo livros que requerem mais minha atenção e que realmente não quero correr para terminar, só para voltar ao ritmo imposto pelo Goodreads. É em momentos como esse que eu recorro aos meus “one-night stands”, hehehe. Eu vou atrás de livros que podem ser lidos em um só dia, além de dar mais caldinho para minha meta de leitura.

Por isso, elaborei uma lista com livros fininhos com menos de 200 páginas e que podem ser lidos rapidamente.

1) O Carteiro e o Poeta, de  Antônio Skármeta – 127 páginas

carteiro e poeta livroDe todos os livros dessa lista, “O Carteiro e o Poeta” é o único que eu já resenhei aqui no blog. Poético e simples, o livro tem um final um pouco denso e segue sendo uma das leituras que mais me marcou na vida.

Sou uma leitora relativamente rápida, isso e o fato de conhecer o enredo por ter visto o filme homônimo de Michael Radford, “Il Postino”, fez com que eu lesse ele bem rápido mesmo. O vocabulário do livro é um pouco avançado – mesmo em português, não são palavras que usamos habitualmente- pode ser que algumas pessoas demorem um pouco mais para terminá-lo.

  1. O Compadre de Ogum, de Jorge Amado – 103 páginas

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Quem sou eu para falar de Jorge Amado, não é mesmo? Mas, decidi incluir “O Compadre de Ogum” nessa lista porque foi uma das melhores, quiçá, minha melhor leitura de 2016.

Escrito em 1964, o livro conta a história de Massu, que é muito popular e amado por todos. Certo dia, a prostituta Benedita aparece muito doente na porta da casa de Massu, com um bebê no colo, o filho do casal.

Com quase 1 aninho de idade, o bebê gorducho e sorridente é entregue à vó de Massu, Veveva e, para o escandâlo da velhinha, a criança ainda não foi batizada na Igreja Católica.

Massu é muito querido por todos seus amigos e, por causa disso, todos querem ser o padrinho do moleque. E é então que o drama começa: Massu não consegue escolher uma única pessoa para ser seu compadre.

“A primeira reação de Massu foi de vaidade satisfeita, todos desejando a honra de chamá-lo de compadre, como se ele fosse político ou comerciante da Cidade Baixa. Por seu gosto convidaria a todos, o menino teria inúmeros padrinhos, os sete presentes e muitos outros, os amigos todos, os do cais, os dos saveiros, os dos mercados, das feiras, das Sete Portas e de Água dos Meninos, das casas de santo e das rodas de capoeira.”

p. 21

Da forma mais brasileira possível, Massu recebe uma visita de Ogum, seu pai de cabeça, que anuncia que ele, o orixá “em pessoa”, será o padrinho da criança.

Para saber como eles vão resolver essa confusão, que mistura religiões e crenças de uma forma deliciosa, só lendo o livro mesmo. Os personagens são todos maravilhosos e realistas, os detalhes muito especiais da organização do batizado do menino também são apresentados e você vai se pegar rindo alto. Super amaria se fizessem um seriado ou uma novela baseados nesse livro (filme eu sei que tem e dá para ver aqui, online)

Envolvente, engraçado e com cheiro de sol e de mar, esse livro tem a pura picardia do malandro. Toda vez que eu penso nele, acabo com um sorriso no rosto, ao lembrar das aventuras misturadas e das vidas contadas, sem preconceitos ou julgamentos.

  1. O Sal da Vida, de Françoise Héritier – 100 páginas

O Sal da Vida

“O Sal da Vida” não deve ser observado como um livro de romance, embora conte uma história. Basicamente, Françoise Héritier lista uma série de experiências, sensações, sentimentos, gostos e desejos, uns seguidos dos outros, de forma a ilustrar aquilo que dá graça à vida, aquilo que nos faz sermos humanos.

“[…] olhar, de cima, um gato que nem desconfia que está sendo observado, rir disfarçadamente, esperar o entardecer, regar as plantas e conversar com elas, apreciar o toque de um couro macio ou de um pêssego ou de um cabelo sedoso, estudar detalhadamente o plano e fundo da Mona Lisa ou as rendas de Van Dyck, ter um sobressalto de prazer ao som de uma voz, partir para uma aventura, ficar na penumbra sem fazer nada, provar com relutância gafanhotos grelhados, desfrutar o prazer das conversas sem fim com velhos amigos […]

p.21

É lindo e super diferente daquilo que estou acostumada a ler. Embora ele possa ser lido rapidamente, é um bom livro para quem está em busca de uma experiência de leitura diferente dos romances padrãozinhos.

Ele também propõe que nós mesmos observemos aquilo que é o sal da nossa vida, ao deixar as últimas páginas livres para serem preenchidas. Confesso que, logo após terminar a leitura, vi a vida com um pouco mais de cor.

  1. Talvez uma história de amor, de Martin Page – 157 páginas

capa talvez uma história de amor martin page

“Talvez uma História de Amor” é um dos poucos livros que eu não faço ideia de onde veio e de como foi parar na minha estante. Faz sentido se você considerar que o principal tópico do livro é uma possível amnésia.

Virgile é um publicitário de relativo sucesso e bastante anti-social. Seu relacionamentos nunca dão certo e ele sempre acaba levando um pé na bunda das namoradas. Mas, um dia, ele recebe uma ligação, que caí em sua secretária eletrônica. Uma mulher chamada Clara dá o veredito “está tudo acabado entre nós!”. Nada de novo aí. Mas… O problema é que Virgile não se lembra de ter namorado nenhuma mulher com esse nome.

Intrigado, ele tenta descobrir quem é essa Clara e, principalmente, tenta re (ou não, né?) conquistar o coração dela.

Esse livro se passa em Paris e a cidade chega a ser uma protagonista secundária, aparecendo no livro mais até do que Clara. O humor é bem daqueles secos e sarcásticos dos franceses, eu gosto, mas entendo que as doses de auto-depreciação do Virgile possam irritar um pouquinho.

“Ao chegar à estação de Montparnasse, com dezoito anos de idade, Virgile decidira que Paris seria o objeto do seu amor, pois era preciso, de alguma forma, dirigir seu amor para alguma coisa. Paris nunca o abandonaria. Paris estava ali sempre que precisava. Paris não exigia sair de férias para alguma ilha paradisíaca, com praias nojentas cheias de óleo e cremes e sol. Paris não estava nem aí se ele ficava sem lavar a louça uma semana, se não fazia barba ou se se vestia mal. Paris o amava.”

p. 67

O que mais me chocou, até agora, foi descobrir que “Talvez uma História de Amor” vai virar filme aqui no Brasil!!!!! Não é uma loucura? Será essa a comédia romântica que eu tanto ando querendo ver? O filme é estrelado por Matheus Solano (!), Thaila Ayala e Dani Calabresa (!!) e dirigido por Rodrigo Bernardo. A previsão de estréia é 07.dez.2017, segundo o Amo Cinema.

  1. O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne – 186 páginas

o menino do pijama listrado capa

Todo mundo conhece bem a história de “O Menino do Pijama Listrado”, que foi adaptado para os cinemas em 2008, pelo diretor Mark Herman. Filme esse que, depois do soco no estômago que foi o livro, nunca consegui criar coragem para ler.

Se você não viveu debaixo de uma pedra nos últimos anos, sabe que o livro conta um pouco da história do Holocausto e dos horrores do Nazismo, do ponto de vista de uma criança, protegida por sua inocência.

Sempre que alguém precisava de alguma coisa, Pavel trazia o que quer que fosse imediatamente, mas quanto mais Bruno o observava, mais certo ficava de que uma catástrofe estava prestes a acontecer. Ele parecia menor a cada semana que passava, se é que isso era possível, e a cor que deveria estar corando suas faces havia se esgotado quase por completo. Os olhos pareciam pesados de lágrimas, e Bruno pensou que uma piscada mais demorada poderia desencadear uma verdadeira torrente delas.”

p. 126

Bruno, filho do comandante de um dos campos de concentração nazista, se torna amigo de Shmuel, uma das crianças judias presas no campo. Através da cerca elétrica que protege os limites do campo de concentração, os dois conversam e a história parte dessa premissa.

Curtinho e simples, na realidade, é um livro infanto-juvenil. Dá para ler “O Menino do Pijama Listrado” em uma sentada só. Ainda mais se você quiser saber o final desesperadamente.

O que poucas pessoas sabem é que John Boyne, o autor, escreveu a história inteirinha em dois dias e meio, sem quase dormir. Ele conta tudo em uma entrevista nesse site,[…] eu só continuei escrevendo até chegar no final. A história veio até mim, eu não sei de onde ela saiu. Enquanto eu escrevia, eu só pensava ´continue e não pense muito nisso´. Com meus outros livros, eu tive que planejar todos eles. Eu penso por meses antes de escrever qualquer coisa. Mas, com esse, na terça-feira a noite eu tive a idéia. Na quarta de manhã eu comecei a escrever e, na sexta-feira, na hora do almoço, eu já tinha o primeiro rascunho.”

Para ser justa, na mesma entrevista Boyne diz que depois desse primeiro rascunho, ele reescreveu o livro umas outras 8 vezes, até chegar no livro final.  A entrevista é ótima, também, para quem quer ser um escritor e precisa de um encorajamento. Se Boyne penou no começo de sua carreira e tinha que ter um emprego para poder se sustentar, imagina nós, pobres aspirantes?

 

  1. O Outro, de Bernhard Schlink – 95 páginas

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Confesso que só comprei esse livro, porque na capa diz que ele deu origem a um filme estrelado por Liam Neeson e Antônio Banderas. Como eu gosto de ambos os atores, decidi dar uma chance.

Basicamente, ele conta a história de Bengt, que perdeu a esposa para um câncer. Depois de uma vida inteira de casados e de se aposentar, Bengt não tem muito o que fazer e se concentra nas tarefas de casa para o tempo passar mais rápido (que tédio, né, gente?).

Certo dia, Bengt recebe uma carta de um remetente desconhecido, mas que foi endereçada à sua esposa. Com a mulher morta e longe de poder ler o conteúdo da carta, Bengt a abre e o que encontra o deixa de cabelos em pé. De um tal de Rolf, a carta revela um antigo affair de sua companheira.

Decidido a descobrir todas as mentiras que sua esposa manteve, ele começa a trocar correspondências como o “Outro”, como se fosse a falecida.

Sinceramente, eu esperava mais desse livro. Imaginando Liam Neeson no papel de Bengt e Antonio Banderas no papel de Rolf, eu esperava que rolasse alguma luta corporal ou até uns assassinatos básicos. Mas, os grandes acontecimentos deste livro acontecem quase todos no âmbito psicológico. As 95 páginas podem ser lidas em menos de um dia com facilidade. O trailer do filme pode ser visto aqui:

Gostou e quer mais dicas de livros para “ler em uma sentada”? A Larissa Siriani tem um vídeo no canal dela só falando sobre isso!

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

Um Amor de Cinema – Victoria Van Tiem

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Nome: Um Amor de Cinema

Autora: Victoria Van Tiem

Editora: Verus

Páginas: 293

“Um Amor de Cinema” foi um dos livros que comprei quando tive aquele breve surto de compras na Bienal do Livro do ano passado. Demorei para lê-lo porque estava em busca do momento perfeito e, quando a hora finalmente chegou, li ele em um só dia.

No livro, seguimos a história de Kenzi Shaw, diretora de marketing e arte de uma agência de publicidade, que está prestes a ficar noiva de seu lindo-e-maravilhoso colega de trabalho, Bradley.

os simpsons casamento

Kenzi acredita que seu noivado vai finalmente fazer com que ela seja notada por sua mãe e por sua família de médicos-super-ocupados. Mas, no dia em que todos se juntam para celebrar, sua cunhada, Ren, anuncia para todos que está grávida e rouba a cena de Kenzi.

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Não bastasse a falta de tato da cunhada, uma solicitação de amizade no Facebook deixa Kenzi de cabelos em pé. Shane Bennett, seu namorado da faculdade, surge das profundezas do passado para assombrá-la.

Quando Bradley avisa à sua noiva de que a agência de publicidade em que eles trabalham corre o risco de fechar, se eles não conseguirem uma conta nova, cabe a Kenzie conquistar o novo cliente e convencê-lo a fechar o contrato com eles. Mas é claro que isso não seria tão simples, né? O novo cliente é ninguém mais ninguém menos do que o próprio Shane Bennett.

Muito espertinho, Shane impõe uma condição para contratar a agência de Kenzi: Que eles revivam algumas das cenas dos filmes de comédia romântica que ela tanto gostava de assistir.

A lista, compilada por Shane, é a seguinte:

  1. Sintonia de Amor
  2. Uma Linda Mulher
  3. O Diário de Bridget Jones
  4. Vestida para Casar
  5. Dirty Dancing: Ritmo Quente
  6. Gatinhas e Gatões
  7. Simplesmente Amor
  8. Digam o que Quiserem
  9. Mensagem para Você
  10. O Casamento do meu Melhor Amigo

“Sorrio, apesar de tudo. É um dos meus favoritos. Tudo bem, todos são meus favoritos. Tem alguma coisa tão inocente e doce em filmes românticos. O mundo nem sempre faz sentido, mas, em uma boa comédia romântica, tenho a garantia de um final feliz. A garota sempre encontra o cara certo, aquele que realmente a entende, no nível mais básico.”

p.26

Sinto que li esse livro de forma incorreta. As 293 páginas dele não são nada intimidadoras e é possível terminar a leitura em um único dia, ainda mais quando se está empolgada para saber o que vai acontecer. Mas, não deixo de achar que, talvez, se eu tivesse apreciado ele mais lentamente, eu teria curtido mais. A grande questão aqui é que muuuuita coisa acontece. Tipo, muita mesmo.

big mistake

Kenzi e seu noivado; Kenzi e seu relacionamento conturbado com sua família; Kenzi e o ex-namorado tentando reconquistá-la; Kenzi e suas escolhas de carreira; Kenzi e o fato de seu trabalho estar entrando em uma possível falência; Kenzi e alguns baphos (relaxa, eu não dou spoiler) que te deixam de cabelo em pé… Tudo isso acontece na história e sinto que alguns problemas foram acelerados mais para o final e outros foram deixados de lado (o que eu até entendo, porque é isso que acontece na vida real mesmo. Algumas tretas são simplesmente ignoradas e tudo bem). Só mais algumas páginas extras deixariam o livro com o enredo mais amarradinho.

“Era de esperar que a essa altura os homens já tivessem aprendido a interpretar a palavra “bem”. Não significa que está tudo certo. Significa que há mais para dizer, muito mais. Que ainda há sentimentos enterrados bem fundo. Mas que serão expostos uma hora ou outra. É só uma questão de tempo.”

p.28

As cenas com Shane foram super fofinhas, mas me irritei um pouco com ele, pela insistência no romance com Kenzi, mesmo quando ela estava #deboa com seu relacionamento com Bradley. Confesso que também não o curti muito porque imaginei ele como o Paul Rudd (eu nem acho o Paul Rudd bonito, sabe?). Mas, acho que se não fosse essa coisa dos romances, não teríamos nem livro, né?

how to loose a guy in 10 days

Eu amei demais as recriações de cenas de filme de comédias românticas. Eu já havia visto todos os filmes da lista de Shane e também todos os outros que são mencionados durante o livro. Eu A-M-O comédias românticas e, dias atrás, quando fui ver Guardiões da Galáxia 2, não pude deixar de ficar chateada com os trailers: basicamente, só vai ter filme distópico, de ação, de aliens, de morte ou de violência. Cadê a Julia Roberts e a Sandra Bullock para nos salvar desse buraco, gente? Esse artigo da Carol Prado, do G1, busca responder nossas questões íntimas sobre o desaparecimento desse gênero.  Seria menos pior se os filmes de ação fossem bons, né? Mas, infelizmente, eu também achei Guardiões da Galáxia bem medíocre e ia fazer um texto só para ele, apontando tudo o que vi e que me incomodou, mas esse texto aqui, do Chico Barney, que compara o filme da Marvel com um filme dos Trapalhões com orçamento milionário, já disse tudo o que eu gostaria de ter dito.

mensagem pra voce

Voltando a “Um Amor de Cinema”: é um livro fofo e despretensioso, que, quando você terminar de ler, vai ficar com um sorriso nos lábios e o coração mais quentinho.

Fiquei com vontade de rever todas as comédias românticas mencionadas no livro e super me relacionei com o que a autora, Victoria Van Tiem, escreveu em seu site oficial sobre de onde tirou a idéia para escrever “Um Amor de Cinema”:

“A ideia veio de querer esses grandes momentos dos filmes românticos para mim mesma. Afinal de contas, nossas vidas devem ser como os filmes. Devemos viver e amar muito, sem arrependimentos, porque, realmente, não temos garantia de recebermos uma segunda ´tomada´.”

o casamento do meu melhor amigo

Recomendo!

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

As melhores lojas de papelaria do Instagram

Apesar do grande foco deste blog ser literatura e cultura, no geral, dois dos posts que são mais acessados aqui é aquele em que eu falo sobre lojas online de papelaria e o que aborda lojas online de acessórios.

A grande realidade é que, nem sempre, a gente tem dinheiro para satisfazer todas as nossas vontades. Eu sou super daquelas que adora olhar vitrines só para ver o que tem de legal e aumentar ainda mais a minha wishlist.

Em inglês tem até um termo que fala sobre essa coisa de olhar lojas sem comprar nada, é o “window shopping”. Mas, recentemente, descobri que é mais legal fazer “window shopping” em lojas online ou no instagram, ao invés de ir para a loja real e acabar “pentelhando” algum vendedor.

Por isso, juntei uma lista de lojinhas fofas de coisa de papelaria que eu sigo no Instagram. Planners, caderninhos, agendas, bloquinhos, canetas, carimbos, post-its… Te m de tudo!!! Confesso que a pior parte de acabar a faculdade foi não ter mais justificativa séria para investir meu sagrado e suado dinheirinho em coisas de papelaria. Quem sabe no mestrado, não é?

    1. Meg e Meg

Clima de Domingo: itens da #megemeg espalhados na cama 💙 Foto da @nerdisma ✨

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Eu amo tanto a Meg e Meg, que posso dizer que de todas, ela é a minha lojinha favorita! Eu adoro os estilo dos produtinhos que são super fofos e clássicos. A marca foi fundada em 2015, pela Jéssica Blanco, e eles são de São Paulo!

Os planners e os caderninhos são meus favoritos, mas também a-d-o-r-o os bloquinhos deles, gente! O frete é grátis acima de R$ 150 e uma das coisas legais é que os preços são bem variados e dá para comprar desde coisinhas mais caras até mais baratinhas, tudo depende do seu bolso mesmo.

Todo mês, a Meg e Meg também disponibiliza printables gratuitos. São templates de coisinhas que você pode imprimir em casa, para adicionar no seu planner ou na sua agendinha. Esse daqui, por exemplo, te ajuda a organizar os filmes e livros que você viu! Tô de dedos cruzados para ver se ela faz um que ajude a elaborar a lista do mercado!

      1. Meu Mundo de Papel

O insta da Ceiça Frota, que comanda a “Meu Mundo de Papel” é uma gracinha!!! Eu fico com vontade de estudar e de escrever a mão toda vez que vejo as fotos dela.

A lojinha “Mimos da Ceiça” têm coisas super diferentes e com uma variedade de preços bem interessante!

  1. Loja La Pomme

A La Pomme já apareceu aqui no blog antes, mas eu ainda sigo eles e estou amando ver como eles cresceram e como os produtos da lojinha estão ainda mais legais!

Os planners que eles fazem podem ser personalizados com seu nome, como esses daqui. Acho chique demais coisas personalizadas com o nome da pessoa ou até o monograma com as inicias dela. Fora que deve ser um presente super diferente e exclusivo para você presentear um chefe, colega de trabalho ou talvez até uma professora. Eu super estou me planejando para comprar um planner ano que vem, haha.

  1. LUBI

O mais legal da LUBI são as ilustrações que enfeitam os produtos. Diferente de estampas e padrões, a LUBI tem coisinhas um pouco mais elaboradas sem que isso deixe o produto muuito mais caro do que o normal.

Na verdade, eles têm um caderno roxo com estampa de gatinhos que é a coisa mais minha cara que eu já vi na internet. Ele quase grita “Mandariela!!!” toda vez que eu olho para ele!

Sei não, mas essa história de ver caderninhos fofos está me dando uma vontade danada de voltar a estudar…

Além dos cadernos e bloquinhos, a LUBI tem o diferencial de ter vários pôsteres com ilustras fofíssimas!

  1. Donna Dolce

A Donna Dolce reúne coisinhas de papelaria e acessórios vintage que são uma gracinha!! A loja é de Recife, mas eles fazem entregas em todo o Brasil, utilizando os correios!

Eles têm uma coleção chamada “#GIRLPOWER, com cadernos e posters que vão fazer você querer ser cada dia melhor do que você foi hoje! Outro produto que eu achei maravilhoso foi o My Adventure Book” um scrapbook inspirado por aquele da Ellie e do Carl, de “UP! Altas Aventuras”, super tive ideias legais para presentear pessoas queridas com um desse!

Os preços também são super variados!!

E aí, gostaram de ir “window shopping” comigo? Mal posso esperar para despejar meu rico dinheiro nas coisas fofas dessas lojinhas! Amei T-U-D-O!!!

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo