Contos do Gabriel – Pálida Felicidade

29 ago

Meu amigo Gabriel foi Jovem Embaixador 2012 comigo e , como podem ver, escreve muito bem. O que mais gosto em seu texto é o jeito como ele trabalha com nossos sentidos. Consigo realmente visualizar a cidade descrita nesse texto, se for um pouco mais fundo, consigo até sentir o cheiro de chuva. Sem falar que Gabriel também consegue trabalhar muito bem os diálogos e consegue passar uma lição através de seus textos.

 Caminhando pelas ruas, que há muito estão desgastadas, não só pelas gotas de chuva que caem como pedrinhas no frágil asfalto, mas pela ausência de alma nos indivíduos que, sabe Deus porquanto continuam no poder, estão os cidadãos de espírito taciturno, expressão pacata e olhar desconfiado. Pelas calçadas, pelas pracinhas, pelos mercantis, espalha-se o lixo, que parece pintura de tão agregado a tais espaços. Tudo possui um tom marrom, de poeira. As árvores parecem todas velhas, e as suas folhagens deitam na terra como que querendo descansar; o sol ilumina e arde na costa dos vendedores de picolé, de cana-de-açúcar, de tapioquinha. Alguns arrastam os pés descalços e pedem uma moedinha ou um pão. Outros, com seus carros de luxo e presunção, sempre que possível passam em alta velocidade por sobre uma poça qualquer, de água de esgoto, lamacenta, e espirram impiedosamente nos pedreiros, nos camelôs, nos guardas fajutos…

Seu Antô, um senhor baixo, de olhos profundos e coluna encurvada, observa lentamente o dia-a-dia. Um meninozinho, Kairo, está no seu calcanhar, tentando lhe dizer alguma coisa.

– Titio, titio! Olha, por favor!
– O que foi menino? Ainda não comprei pão, volta mais tarde!
– Não, titio! Seu vizinho, o Filó, acabou de descarregar mais um carrinho cheio de porcarias. Sacos de plástico, comida estragada, dá nojo!

– Que patife esse Filó! Onde é que tá tamanha imundice, me mostra já, menino!

Kairo deu um sorriso e correu feito marreca. Seu Antô acompanhou-o com esforço, e antes de sair, pegou uma pá e um carrinho de mão.
Chegando ao local, lá estava o lixo, atirado na parede de madeira, abrigo de cupins, atraindo moscas. Seu Antô cuspiu, pegou a pá e começou a colocar tudo dentro do carrinho. Kairo fitava-o curioso.

– Olha menino, essas pessoas que fazem isso são como plantas que comem a própria raiz. Deus dá de bondade a vida a eles, a terra, a comida, dá tudo. Rega-os diariamente com chuva, com sol, mas mesmo assim essas pessoas, insatisfeitas e ingratas, se destroem. E, ao se destruírem, tentam também destruir o mundo.

– Mas por que eles fazem isso, titio?

– Porque são cegos e sem sentimento.
– Mas eu vejo os olhos deles, e eles parecem enxergar tudo muito bem. Hunf!
Seu Antô terminara o serviço e pensara consigo: “criança inocente, com a educação certa vai salvar o mundo”.

– Olha o que estou fazendo, pequeno Kairo, limpando o lixo do outro.
– Era ele que tinha que fazer isso, não é? Você é bom, titio, hehe.
– É menino, não fui eu quem jogou o lixo aqui, mas eu limpo porque quero viver, quero que você viva, quero que o planeta respire com saúde.

E Kairo ouvia atentamente.

O sol deixava a pele do senhor muito bronzeada. Ele levara consigo, além das ferramentas, uma garrafa de alumínio bem velha. Molhava a garganta, cuspia e continuava a tirar o lixo dali.

A vizinhança toda ficava quieta, cochichava sobre alguma novela e só. As casas dali eram todas sujas de poeira e de lama. As janelas tinham vidro todo embaçado, as portas tinham maçanetas capengas. Nas ruas, sempre se via a mesma cena: uma embalagem de qualquer coisa era deixada num bueiro, ou ao vento, ou no chão, mas nunca dentro do lixo.

Kairo comentara com seus três amigos, outros miúdos que usavam bermuda rasgada e suja, cabelo bagunçado e camisa furada, sobre a atitude do seu Filó. Cada um, num tumulto de vozes agudas, começou a dizer:

– Lá na rua também acontece!

– E na minha também!

– Conheço uns senhor que também fazem isso!

Kairo estufou o peito, subiu num tijolo quebrado e gritou. Todos olharam pra ele.

– Titio me ensinou algumas coisas hoje. A gente pode limpar o lixo também!

Que diversão estava por vir, pensaram todos os miúdos. Raian era o menor, tinha quatro anos, quase branco e de olhos grandes. Sua carinha estava sempre atenta. Tiuí era o do meio, falante, moreno e carequinha. Yuri era o segundo mais velho, tímido e com cabelos lisos, muito lisos. Kairo era o líder, também moreno e de cabelos cacheados.

Depois da pequena reunião do grupinho, Kairo deu ordens de que, no dia seguinte, todos deveriam se encontrar na praça que ficava em frente à casa do seu Antô. Somente aqueles meninos sabiam onde ficava a casebre do senhor. É que todo o resto, todos os outros habitantes, mal abriam as portas ou janelas. Conversavam por paredes, sem mesmo ver a face do outro.

No dia seguinte fazia um calor escaldante. Seu Antô estava na cadeira de balanço, na varanda da casinha desbotada. Nas ruas, cachorros em bando procuravam por todo lugar algum osso. As últimas flores que restavam, tratadas como filhas pela dona Lili, abrigavam as borboletas, as formigas. Os meninos chegaram então até a pracinha, como combinado. Kairo distribuiu um pano velho para cada um, e um balde quebrado foi colocado ao centro.

– Bem, a gente vai fazer assim ó: somos quatro, então seremos divididos em dois grupos de dois e vamos procurar lixo por aí. Com esse pano você pega o lixo e joga nesse balde aqui.
– Mas o balde é muito pequeno, Kairo! – disse Tiuí.

– É pequeno! – concordou Raian.

– Não tem problema. Titio disse que depois que encher o balde é pra jogar ali no carrinho dele que depois ele vai ajuntar e separar o que dá pra ser usado. Vamos? – e todos os miúdos saíram correndo para a aventura.

Eles nunca tiveram um brinquedo, seja um boneco, um carrinho, uma bola. Só mesmo a imaginação lhes proporcionava a diversão que, casualmente, tinham. Mesmo naquele mundo marrom os miúdos conseguiam ser felizes.

Seu Antô, depois de ter testemunhado a maratona pela qual os meninos passaram, largou elogios, e distribuiu pão com suco para todos até que ficassem de barriga cheia.

– É isso, meninos. Vocês são os heróis deste planeta. Sim, os heróis. Vamos aqui.

Seu Antô dirigiu-se até o jardim da dona Lili, e começou a falar.

– Conseguem ver essas formigas? Como são pequenas, não é mesmo? Ainda assim, conseguem carregar coisas muito mais pesadas que elas.

Surgiram os porquês.

– Porque, bem, elas têm força…

E seu Antô respondia toda e qualquer pergunta que os miúdos faziam. Ele sempre encontrava a resposta, sempre mostrava à eles o lado positivo das coisas, das simples e das pequenas, das complexas e grandes. E, como disse o mestre, “esse amor, não o vê ninguém”.

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