Contos do Gabriel – O Senhor das Praças

5 set

Mais um texto do meu amigo Gabriel. Esse aqui é um pouco mais longo. Adoro o jeito como ele trabalha com os diálogos.

 O senhor das praças

 I

Os cidadãos daquela imensa cidade chamada de Verstá, coberta de folhas velhas de centenas de árvores que a enfeitam, um verdadeiro centro de comércio no mundo ocidental, onde há gente de todo o tipo, pessoas habituadas  ao caos e a lotações, sempre se surpreendiam com a chegada daquele que diziam ser o senhor das praças. Ele passava grande parte do dia conhecendo novas caras.

– Oh! O velho e os seus ensinamentos! – diziam alguns moradores dali.

Ele era um senhor baixo, de barba e cabelo branco. Se vestia rusticamente, usava uma touca azul e tinha os olhos e o espírito muito lúcidos. Seu nome era um mistério para todos, inclusive para si mesmo.

Era costume do senhor perambular pelos arredores do centro de Verstá, onde rotineiramente passavam milhares de pessoas, do amanhecer ao crepúsculo. Sentava-se num banco de madeira, ao lado de alguma resedá, e iniciava conversa com quem se sentava ao seu lado.

– Por acaso o senhor é feliz? – perguntou a um rapaz desconhecido, que o encarou estranhamente.

– E por que é que o senhor quer saber? Ora, claro que sou!

– A felicidade não transparece em sua expressão derrotada, meu jovem.

– Expressão derrotada?! O que o senhor quer dizer, hein?! 

– Quero apenas lhe dar um conselho, filho: vá ajudar algum dos milhares de famintos que existem nesta cidade. Sua recompensa será bastante justa – disse o senhor, olhando para o horizonte.

O rapaz saiu atordoado e balançando a cabeça, não entendendo nada do que lhe disse o velho.

De fato, poucos realmente entendiam as intenções daquele incomum senhor, e a maioria com quem ele conversava ia embora taxando o velho de insano; mesmo assim, ele sempre terminava seu discurso com um sorriso no canto do rosto.

Ele morava dentro de uma cachoeira, distante a mais ou menos 14 quilômetros do movimentado centro da cidade. Em sua casa, que tinha quatro pequenos cômodos, divididos em quarto, sala, cozinha e banheiro, ajustavam-se suas revistas, jornais, livros e vários discos espalhados por organizadas prateleiras. Tinha o hábito de toda manhã aquecer a voz, tocar o piano que havia na sala e reger sua orquestra imaginária, que tocava peças de Vivaldi e Wagner. Dedicava horas a leitura de Tchékhov, Weber, Hegel e outros intelectuais. Mas era em conhecer novas pessoas, dar conselhos e ajudar quem precisasse que dedicava a maior parte de seu tempo.

Certo dia, no centro de Verstá, o senhor das praças sentou e esperou que alguém também sentasse. Depois de alguns minutos, sentou-se uma jovem. Tinha os olhos cor de mel, cabelos enrolados e uma expressão decisiva e meiga. Pelo rosto e pelas roupas via-se que acabara de sair do trabalho. Folheou algum jornal, depois colocou o cotovelo apoiado no braço do banco e o punho afundado no rosto.

– A senhorita parece estar exausta – comentou o senhor.

– É, trabalhei muito hoje – respondeu a jovem, educadamente.

– Aceita que eu lhe pague um café, ali, atravessando a rua? – continuou o senhor -, talvez você recupere um pouco suas forças e caminhe melhor até sua casa.

– Ah, é muita gentileza sua mas, obrigada, eu estou bem – ela respondeu com espanto e timidez.

Fazia um dia bonito. Toda a fumaça produzida pelos veículos parecia ter ido de vez para fora da atmosfera, o sol encostava na pele de modo suave e gostoso. A jovem, depois de ficar um pouco calada, virou-se para o senhor.

– Bem, o que há demais? Ainda está cedo, tomar um café pode ser bom. Por que não? – disse francamente.

O senhor das praças ergueu as sobrancelhas, admirado.

– Realmente, minha jovem, por que não?

Enquanto caminhavam, todos dirigiam o olhar para aquela moça belíssima que conversava com um senhor mal-vestido. As pessoas realmente desprezam aquilo que não podem compreender.

A moça, que apresentara-se com o nome de Aleida Zielis, ora ou outra soltava alguns singelos gritinhos de surpresa, porque constantemente o que o senhor dizia parecia-lhe interessante.

– Alguns externam o que pensam de maneira equivocada e não aceitam ser contrariados. No final das contas, se usar “Na minha opinião” só demonstra respeito e humildade – dizia com calma e eloqüência o senhor das praças. A jovem respondia positivamente, concordando.

– O senhor é uma boa pessoa. Ah, este café é maravilhoso! Como não pude experimentá-lo?! Passo tanta vez na frente deste local, sempre com pressa… – afirmou Aleida, se lamentando.

–  As belas nuances da natureza, ou um agradável local como este, construído por homens, podem, e quase sempre, passam despercebidos à vista daqueles que são acostumados a moverem-se na velocidade da luz.

Houve um silêncio.

– Talvez você devesse encarar as coisas com mais leveza, filha – concluiu o senhor.

Ela agradeceu com um sorriso a companhia e o café, fez gesto com a cabeça e retirou-se da presença daquele simpático novo conhecido.

II

A vida de Aleida, como a de muitos outros seres humanos, era muito agitada. Trabalho, estudos e a mãe, a quem freqüentemente fazia visitas e sempre ouvia a mesma coisa.

– Filha! Olhe para seu belo rostinho… Tão nova e tão ansiosa!

– Mamãe, já lhe disse, é o trabalho…

– O trabalho, ora, largue o trabalho se isso lhe fará bem, filhinha! Vem cá, deixa eu te fazer um carinho.

A moça deitava no colo da mãe, introspectiva. Aleida sofria de uma doença rara no coração e sabia que largar o trabalho não lhe era a melhor escolha, pois precisava do dinheiro para comprar remédios. Sua mãe, uma velhinha miúda e atenta, sabia da doença da filha, mas nada podia fazer com sua aposentadoria pequenina, que mal sustentava a si mesma. O pai de Aleida morrera ainda quando ela era uma bebê.

– Eu dou um jeito, mamãe. Agora descanse. Volto daqui a dois dias. – Aleida beijou as mãos da mãe e saiu.

Seu dia começava seis e quinze da manhã. Raramente saía para estudar sem tomar o desjejum, pegava o metrô das sete e chegava na universidade às oito.

– Hoje tenho aulas de… – procurava no caderno da universidade onde estudava Literatura Ocidental.

Depois das aulas, que terminavam cerca 14 da tarde, ia para o serviço. Ela era professora-auxiliar de alunos com retardos mentais. Amava o que fazia e era elogiada quase que todos os dias por todos que a conheciam. Ficava na escola até 20 horas e ia pra casa.

Num fim de tarde qualquer Aleida encontrara-se novamente, no centro de Verstá,, com o senhor das praças. Ele encontrava-se num debate com dois estudantes.

– Você, segundo sua filosofia Marxista, diz-me que nada pode ser feito senão reivindicações. Você outro afirma que ações conjuntas com o intuito de melhorar determinada área da sociedade é o que deve-se fazer. – dizia pensativo o senhor, enquanto os dois estudantes, Aleida e muitos outros que passavam por ali ouviam-no – Que tal, então, unir as duas preposições?

– Concordamos – disseram os estudantes, sorridentes e satisfeitos com a conversa que tiveram.

O senhor saudou-lhes com uns tapinhas no ombro e pôs-se a sentar.

– Olá – disse Aleida, que com um encantador, mas triste sorriso, sentou-se ao lado do senhor.

– Ora, ora! Olá, minha jovem! Viu?! Temos mentes brilhantes nesse mundo, sem dúvida. O que acontece é que muitas vezes as pessoas não compartilham ideias e o pior, não procuram unir-se para fazer a diferença.

– Eu entendo, é verdade.

– De qualquer maneira, je suis charmée de vous revoir, mademoiselle. A que devo tamanha honra?

Aleida explicou que, na verdade, só queria mesmo conversar e quem sabe tomar um café outra vez. Disse o quão era difícil naqueles dias encontrar pessoas de bom intelecto e que, do contrário, quantas pessoas vulgares habitavam a terra.

III

A saúde de Aleida piorara bruscamente. Fazia um mês que não visitava a mãe, dias que não conversava com o senhor. Internou-se depois de alguns dias passando muito mal.

– Sinto informar – dizia o médico do hospital onde Aleida internara-se -, mas a sua doença piorou significativamente. Seu coração está fraco, muito fraco. Você precisará de um novo para poder continuar vivendo.

Aleida nunca se sentira tão mal na vida. Aquela notícia lhe abalou profundamente.

– Mas, doutor, há quem possa me doar um coração? – perguntou, taciturna.

– Infelizmente não há ninguém no nosso banco de doadores. O que podemos fazer é contatar outros hospitais e publicar algum anúncio nos jornais. Esperamos assim encontrar um doador pra você – terminando, o médico retirou-se da sala.

Aleida ficou ali, muda. Sua tristeza era maior que qualquer coisa que ela já sentira. Quem? Quem doaria o próprio coração para uma desconhecida? – ela  ficava o tempo todo a pensar. Seus parentes eram distantes demais; seus amigos, jovens demais.

Depois de alguns dias, uma enfermeira trouxe uma inesperada notícia para a jovem.

– Parece que alguém vai lhe dar o coração – disse.

De supetão, brotou um sorriso mais que sincero e ansioso no rosto de Aleida.

– Mas quem, quem?

– Ainda não tenho o nome, mas saiba que o seu novo coração está bastante saudável.

A cirurgia fora, então, marcada para uma semana depois.

Aleida, depois de operada, recuperava-se lentamente. Quando já podia abrir os olhos, recebeu uma carta.

– É de quem lhe doou – disse a enfermeira, sussurando.

Aleida abriu a carta, que dizia:

“Há um motivo para tudo. Você é uma das raras pessoas que está disposta a conhecer novos seres sem preconceito ou julgamento. Jovem determinada e certamente com um grande futuro pela frente. Lembre-se do que conversamos. Jamais fique parada, evite sua própria zona de conforto, ajude as pessoas. O mundo precisa de você. Assinado, o senhor das praças.”

 Fevereiro de 2012

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