Jack Ryan é mais do mesmo

poster divulgação jack ryan
Apesar de eu ter achado totalmente dispensável, “Jack Ryan” ganhou uma segunda temporada. Será que eu terei paciência para assistir?

“Jack Ryan”, que estreou no final do mês na plataforma Amazon Prime, era a promessa de um novo seriado para sugar a minha vida e me deixar obcecada com uma narrativa de espionagem repleta de reviravoltas e de truques especiais

É verdade esse bilete.

Infelizmente, “Jack Ryan” foi uma grande decepção para mim.

Na série, acompanhamos um pouco da história de Jack Ryan, um doutor em economia e veterano de guerra que é especializado em rastrear transações financeiras suspeitas, que podem ajuda-lo a identificar potenciais novos terristas.

Jack é extremamente inteligente e ele  acredita ter encontrado “o novo Bin Laden”, coisa que é revelada em um diálogo absurdo, que apresenta personagens que nunca mais aparecerão na tela.

Para mostrar que Jack Ryan é inteligente, há uma cena que chega aos limites do caricato. Nela, Jack Ryan responde perguntas difíceis de Jeopardy! (um game show de perguntas e respostas que é super popular nos EUA), e é nisso que os roteiristas esperam que a gente apoie nosso argumento de que “oh, nossa, ele é inteligente”. Não há,  no resto dos episódios, um exemplo prático de que Ryan tem a mínima ideia do que está fazendo.

Ele não é um Robert Langdon, que chega a deixar o espectador desorientado com tantos fatos históricos que joga na tela. Passou longe, bem longe.

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Eu adoro o John Krasinski, mas ele não convence.

Eu não sei se é o ator que não convence, mas é difícil acreditar que Jack Ryan seja realmente o único que pode parar o tal terrorista.

Mas, voltando: O potencial terrorista, segundo Jack Ryan, é Suleiman (interpretado por Ali Suliman). Nascido no Líbano, ele foi criado na França e foi lá que se voltou ao extremismo.

Os atos de Suleiman “tentam” ser justificados por meio de flashbacks que apresentam a trajetória pessoal do terrorista. Mas não convence. É como se os próprios roteiristas não tivessem certeza de que guinadas ao terrorismo podem ter sido consequências da Guerra Fria e das disputas pelo petróleo nos anos 70 e 80, do preconceito, do racismo e da falta de oportunidades igualitárias.

Nenhuma reflexão acontece a partir da história pessoal de Suleiman e tudo desemboca novamente na questão da meritocracia e do “se ele queria, deveria ter trabalhado com mais afinco para conseguir”. Como se precisamos de mais uma série/filme que vende essa mesma ideia para gente…

Suleiman que, no começo, é um personagem que tem até certo carisma, torna-se o cúmulo do absurdo e eu não sei dizer se eu tive essa impressão porque 1- o terrorismo é um absurdo ou 2- o ator que faz Suleiman tinha mais carisma do que John Krasinski e isso precisava ser consertado de algums forma (como, por exemplo, fazer o personagem ter arroubos de violência não-justificada que não fazem sentido comparados com outras atitudes que ele teve no resto da série).

Uma das coisas que mais me impressionou foi a storyline de Hanin (interpretada brilhantemente por Dina Shihabi), esposa de Suleiman, e de suas filhas. Fiquei fisgada e acho que só terminei de ver a série porque queria saber o que aconteceria com elas.

De todos os jeitos, a narrativa, que parecia promissora e interessante, cai de novo naquele preguiçoso jogo de bem x mal. De EUA x terrorista doido.

Essa série, que poderia apresentar um ponto de vista diferente de todos os outros filmes e seriados produzidos sobre espionagem e terrorismo nos EUA depois de 2001, é só mais daquela mesma história maniqueísta de sempre.

Há uma tentativa de acrescentar profundidade, colocando o chefe de Jack Ryan como um homem negro e muçulmano. No entanto, o personagem parece sub-aproveitado, salvo uma única cena de diálogo entre James Greer (interpretado por Wendell Pierce) e um policial francês (para mim, um dos pontos altos da série).

Há também uma tentativa de acrescentar romance, com uma personagem que é uma doutora consagrada, Cathy Mueller (interpretada por Abbie Cornish) e não é nenhuma ninfeta. Interessada por esse gancho, me vi decepcionada ao ver que os atores não tinham química alguma. Se no começo ela própria sugere um relacionamento casual, no final há um diálogo absurdo e ridículo,  onde ela diz “mas tudo que aconteceu entre nós foi uma mentira???”. So much for character building.

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“Ih, rapaz, que será que aconteceu com ela?”

Eles poderiam ter aproveitado a personagem de tantas outras formas diferentes mas preferiram seguir, de novo, no caminho preguiçoso que é seguido por todos os outros filmes e séries de espionagem. (Ethan Hunt, I’m looking at you).

Uma storyline secundária é apresentada e, apesar de eu ter gostado dela mais do que da de Ryan, estou ainda tentando entender porque gastar tanto tempo de tela e energia em algo que, em tese, é secundário (porque não fazer uma série só daquele personagem, por exemplo?).

Bem produzida, com cenas gravadas em diferentes países, com direito a muitos tiros, explosões e efeitos visuais, o potencial de Jack Ryan é jogado na descarga com um roteiro fraco, diálogos cheios de clichés e um argumento que não convence nem os próprios roteiristas.

É diferente de “Au Service de la France”, por exemplo, que tem diálogos afiadíssimos e cuja primeira temporada foi quase toda gravada em um único set. A segunda temporada, que já está disponível na Netflix, segue a mesma fórmula, mas com um orçamento um pouco mais parrudo. Chega a ser engraçado ver a forma como os personagens discutem a mudança de ambiente sabendo que ela foi causada por um upgrade na grana.

Acho que ter em mente um conparativo desses foi o que deixou ainda mais difícil para mim gostar de Jack Ryan.

Estou pensando seriamente em ler Tom Clancy para ver até que ponto é adaptação do livro e “liberdade criativa” de roteiristas de TV.

Trailer de Jack Ryan:

Sobre o Amazon Prime:

A primeira semana de uso do Amazon Prime é grátis e foi assim que vi Jack Ryan. Depois disso, os primeiros seis meses custam R$ 6,90.

Eu dei uma fuçada no catálogo, mas não estou convencida a largar a Netflix pelo Amazon Prime. Salvo 3 ou 4 filmes lançados neste ano, a plataforma não traz nada de novo ou diferenciado (nem mesmo com conteúdo original).

A experiência do usuário é bastante precária, com um tal de “X-ray” que passa detalhes dos bastidores dos episódios no canto da tela, o que torna o tempo de carregamento dos vídeos absurdo e bastante distrativo do conteúdo em si.

O aplicativo para iPad não funciona muito bem e toda vez que você o abre tem que configurar o idioma em que quer ver o seriado de novo. Em certos momentos, tive dificuldades até em navegar pelo próprio catálogo, com categorias recarregando ou mudando de lugar toda vez que eu iria mexer nelas.

Visualmente, o aplicativo  é carregado e pesado. Enquanto a Netflix padroniza as capas dos filmes para trazer mais harmonia, o Prime usa os próprios pôsteres de cinema para exibir os filmes e o resultado é bastante desagradável e feio.

Assim como minha experiência com Jack Ryan, o Amazon Prime também não é tão bom e não vai ser agora que eu vou migrar.

Beijoos, A Garota do Casaco Roxo

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5 documentários para conhecer melhor a Inglaterra

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Ônibus de dois andares, cabines de telefones vermelhas, a Torre de Londres, táxis pretos e a realeza… São muitas coisas que evocam o imaginário das pessoas quando o assunto é Inglaterra.

Muita gente sonha em conhecer o país e em visitar alguns de seus monumentos turísticos. Confesso: entre Londres e Paris, minha predileção vai para os franceses. Mas, recentemente, me surpreendi com a quantidade de documentários disponíveis na Netflix sobre a Inglaterra.

Como eu não recuso um bom doc, acabei embarcando na viagem e descobrindo muitas coisas sobre o país da Rainha Elizabeth.  

Por isso, elaborei a lista dos melhores documentários que vi sobre a Inglaterra. Vamos conferir?

  • “She-Wolves: England’s Early Queens”

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Recentemente, eu reclamei aqui no blog sobre o quão pouco a gente aprende sobre história da América Latina, durante a escola. “She-Wolves: England’s Early Queens” me mostrou que até mesmo aquilo que a gente aprende sobre a história de outros países não é lá tão aprofundado.

Eu, por exemplo, sempre acreditei que Elizabeth I sucedeu Edward VI de imediato. Os dois são filhos do Henrique VIII, aquele do anglicismo e que costumava matar as esposas (a mãe da Elizabeth, Ana Bolena, inclusive). O que eu não sabia eram as diversas disputas de poder que aconteceram antes de Elizabeth I assumir o trono.

Em “She-Wolves: England’s Early Queens”, nós seguimos a trajetória de 7 diferentes rainhas inglesas, que assumiram o poder em momentos diferentes da história da Inglaterra. Por meio de guerras, disputas internas e conspirações, as rainhas abriram caminho para que a monarca Elizabeth II pudesse reinar por mais de 60 anos.

dr helen castor presenting she wolves englands early queens

O programa é dividido em 3 episódios e é apresentado por Helen Castor, uma historiadora que costuma biografar diversas rainhas, inclusive Joanna D’Arc.

O ritmo do documentário é um pouco lento e muitas informações são passadas ao mesmo tempo. Confesso que me perdi em alguns episódios e tive que voltar para trás para entender o que estava acontecendo.

Mesmo assim, o documentário tem grande apelo e charme e qualquer pessoa que goste da realeza vai amar entender melhor como as linhas de sucessão funcionavam no passado.

  • Secrets of Westminster

Secrets of westminster cover photo

Esse é o tipo de documentário que qualquer pessoa com vontade de conhecer Londres ia amar!

Ele faz uma viagem super detalhada por dentro do Parlamento Britânico, da Abadia de Westminster e do Big Ben. Além disso, o documentário aborda tradições e explica o porquê da rainha não poder entrar NUNCA na “House of Commons”, o equivalente à nossa Câmara dos Deputados.

Eu, por exemplo, sempre vi imagens aéreas de Londres e não sabia que a Abadia onde Kate Middleton se casou ficava exatamente atrás do prédio do Parlamento Britânico.

Bem editado e rico em imagens, a impressão que dá é que você está passeando pelas ruas de Westminster mesmo.

  • Os Segredos de Scotland Yard e Secrets of her Majesty’s Secret Service

secrets of scotland yard

Reuni os dois documentários em um só porque ambos falam sobre segurança pública na Inglaterra. O primeiro aborda um pouco da história da Scotland Yard, desde seu surgimento até os dias atuais.

O pessoal que ama investigação criminal vai adorar esse documentário, porque ele retoma algumas investigações que foram importantes para a polícia como a de Jack, o Estripador. Além disso, eles falam um pouquinho sobre perícia criminal e sobre como o trabalho deles se desenvolveu.

secrets of her majesty's secret service

O segundo, “Secrets of her Majesty’s Secret Service”, fala sobre o MI6 e os serviços de espionagem da Inglaterra. Vi ele em uma semana que eu estava bem obcecada com James Bond e foi bem legal ver que há todo um pano de realidade por trás da história do espião.

O documentário não é lá muito esclarecedor porque, bem, ele fala sobre uma coisa que deveria ser secreta, né? Mas eles retomam a história do surgimento da agência, como uma divisão da Marinha Britânica, além de falarem um pouco, mas bem pouco, sobre como eles trabalham.

  • Secrets of Underground London

secrets of underground london

“Secrets of Underground London” segue a mesma linha de “Secrets of Westminster”, mas mostra um lado de Londres que não dá para ver por imagens aéreas: o subterrâneo.

O documentário aborda um pouco da história dos 154 anos de existência do metrô de Londres, desde o espanto com seu surgimento até os dias atuais, mas não fica só nisso.

placa do metrô de londres

Ele mostra um pouco do cotidiano dos londrinos, durante a Segunda Guerra Mundial, que envolvia se esconder em estações de metrô abandonadas e em bunkers subterrâneos, que seguem completamente preservados. Um desses abrigos pertencia a Winston Churchill e é bem legal ver como eles costumavam “se esconder” naquela época.

Uma escavação arqueológica que está recuperando os vestígios deixados pelos invasores romanos também é visitada pelos documentaristas e é bem interessante ver o passado de Londres abordado bem “profundamente”. Ba dam tss!

  • Secrets of Althorp – The Spencers

secrets of althorp the spencer

Esse foi um dos documentários que eu mais amei! Althorp é a residência oficial da família Spencer, do tipo, Lady Diana Spencer.

Ao contrário do que muitos pensam – eu, inclusive – Lady Di não era uma plebéia como Kate Middleton, mas sim descendente de uma família de aristocratas britânicos muito, muito ricos. A família tinha dinheiro a ponto de ter uma casa enorme, à la Pemberley,  como em Orgulho e Preconceito.

Na verdade, a linhagem real dos Spencer vem da Casa dos Stuart e é mais antiga do que a Casa de Windsor, de quem a família da Rainha Elizabeth descende. Há boatos de que os Spencer são mais da realeza do que a própria rainha. Cara, isso é tão Game of Thrones.

O documentário é quase que inteiro baseado em entrevistas de Charles Edward Spencer, 9° Conde de Spencer e irmão de Diana.

Charles Spencer 9° conde
Charles Spencer, durante a filmagem do documentário

Não só ele mostra a residência em que ele e Lady Di cresceram, mas também retoma um pouco da história e da memória da família, sem deixar de mencionar a irmã. Há um memorial na propriedade de Althorp, dedicado totalmente à Diana e a gente pode passear um pouco por ele, pelas das imagens do documentário.

É bem legal de ver e me fez ficar com vontade de ler a biografia de Lady Di e saber mais sobre ela, no ano em que seria o 20° aniversário de sua morte.

Bônus

  • Secrets of Great British Castles

secrets of great british castles

Esse documentário fez tanto sucesso, que não só tem 2 temporadas, mas também tem um spin-off, o “Secrets of Great Irish Castles”  que foca nos castelos da Irlanda.

Os programas são apresentados pelo historiador Dan Jones e cada episódio se desenrola em torno de castelos que tiveram papel importante na história do Reino Unido. Dover, a Torre de Londres, Caernarfon e Carrickfergus são alguns dos endereços visitados durante a série de documentários.

o apresentador de Secrets of Great British Castles na Torre de Londres
o apresentador de Secrets of Great British Castles na Torre de Londres

Editado por meio de reencenações de acontecimentos históricos, entrevistas com especialistas e tours dentro dos próprios castelos, o documentário é bem legal.

Apesar de bem informativo, ele não é tão cansativo quanto o “She-Wolves” e tem vários momentos de descontração. É bem interessante conhecer a história de castelos que foram erguidos em 1300 e são bem mais velhos do que meu próprio país.

Dan Jones no castelo de Cardiff
Dan Jones no castelo de Cardiff

Espero que minha lista te ajude a conhecer um pouco melhor a Inglaterra, seus pontos turísticos e a sua história. Agora é só abrir a Netflix e viajar sem sair do sofá!

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

Por que você deveria ver o seriado The Keepers

Pôster de divulgação do seriado The Keepers

Eu tive um mês de julho bem Católico – pelo menos para os meus padrões.

Fui batizada (como quase toda criança brasileira) na Igreja Católica, mas depois encontrei meu caminho em outra religião. Apesar disso, vou na missa de vez em quando e em julho fui duas vezes à Igreja (e mais uma terceira vez, mas só porque a Festa Julina do meu trabalho voluntário aconteceu no salão de uma Paróquia).

E, em todas essas vezes, não consegui parar de pensar em “The Keepers” e na Irmã Cathy Cesnik. “The Keepers” é um documentário que vai ficar junto de você por anos e anos.

A série, que é original da Netflix, conta a história do assassinato da freira Catherine Cesnik, que aconteceu na cidade Baltimore, em  7 de novembro de 1969.

Quando foi assassinada, a Irmã Cesnik tinha apenas 26 anos e era professora de inglês da Archbishop Keough High School. O desaparecimento e depois a descoberta do corpo da freira, 2 meses depois, chocou toda a cidade e o país. Esse post, do Huffington Post, em inglês, explica um pouco do que aconteceu na noite em que Cathy Cesnik foi assassinada.

foto da freira cathy cesnik
Cathy Cesnik

Poucos dias depois do desaparecimento da freira, uma jovem, Joyce Malecki, também foi encontrada morta. Joyce e Cathy moravam a apenas alguns quarteirões de distância uma da outra.

  • A perseverança de Gemma Hoskins e Abbie Schaud

Abby Schaub e Gemma Hoskins
Abby Schaub e Gemma Hoskins, em uma das cenas do documentário.

Nos primeiros episódios de “The Keepers”, nós somos apresentados a duas ex-alunas de Cathy Cesnik, Gemma Hoskins e Abbie Schaud. As duas ficaram chocadas com a morte da professora e, depois de aposentadas, decidiram dedicar parte de seu tempo a investigar o que aconteceu com a freira.

Gemma é mais extrovertida e gosta de conversar com as pessoas, para conseguir captar as informações necessárias. Já Abbie realiza pesquisas em bibliotecas e hemerotecas e usa o Facebook como uma de suas principais ferramentas de investigação.

Juntas, as duas descobriram mais informações do que aquelas que foram coletadas pela polícia de Baltimore, em 1969. Provavelmente, foi o trabalho de Gemma e Abbie que fez com que polícia reabrisse a investigação sobre a morte de Cathy.

gemma abby e gerry koob analisam a posição em que o carro da freira foi encontrado
The Keepers – Gemma e Abby analisam a posição em que o carro de Cathy foi encontrado no dia de seu desaparecimento

  • A coragem das vítimas de abuso sexual da Archbishop Keough

Fiquei durante todo o primeiro episódio tentando encontrar motivos (jovem, bonita, freira… nada se encaixava) para o assassinato da freira. Sem sucesso. Eu me sentia tão cega quanto a Polícia de Baltimore deve ter se sentido em 1969.

Foi só no segundo episódio que eu pude, enfim, encontrar um motivo plausível.

Em 1995, ex-alunas do Archbishop Keough tomaram coragem e revelaram os sistemáticos abusos sexuais que aconteciam no colégio e que eram perpetrados pelo capelão da escola, o Padre Joseph Maskell, e por um outro membro da diocese.

A história do documentário deixa de ser sobre o assassinato da freira e passa a ser algo maior. 

Os depoimentos mais contundentes são os das alunas Teresa Lancaster e Jean Wehner, cujas histórias me assombram até hoje, semanas depois de ter visto o programa.

jean wehner quando estava no último ano do ensino médio
Jean Wehner aos 17 anos, em seu último ano de Ensino Médio

Boa parte das memórias dessa época, Jean só conseguiu recuperar 30, 40 anos depois da morte de Cathy, de tão traumatizada que ficou.

  • A forma como os episódios foram costurados um ao outro

O formato de “The Keepers” é bem parecido com o de “Making a Murderer”. As peças do quebra-cabeça vão se juntando aos poucos e você começa a entender melhor os vários fatores que causaram a morte de Cathy Cesnik.

machete de jornal "who killed sister cathy?"

É como se um véu fosse retirado e, aquilo que não estava claro no começo, passa a fazer sentido. Intercalando 1969, com os anos 90 e os dias de hoje, a narrativa não é linear.

No final, a gente não temos uma resposta concreta à pergunta “Quem matou Cathy Cesnik e Joyce Malecki?”. Mas a forma como a narrativa é levada deixa uma leve sensação de justiça, tristeza e pena. Ao mesmo tempo sentimos que o dever de Abby e Gemma foi devidamente cumprido.

O seriado é entristecedor e vai permanecer na sua cabeça por muitos, muitos, muitos dias, quiçá para sempre. Mas acho que é isso que o torna algo que merece ser visto.

Em 2019, o assassinato de Cathy Cesnik vai completar 50 anos e, com “The Keepers”, ele segue atual e relevante.

  • O seriado não cai em sensacionalismo barato

Essa é a história da morte de uma freira que não só foi brutalmente assassinada, como também foi violentada. Esa é a história de adolescentes que foram manipuladas por padres católicos e que eram estupradas e abusadas física e psicologicamente com frequência. Essa é uma história de duas mulheres, que nunca desistiram de tentar descobrir a verdade.

Sabe aquele programa que tinha tudo para entrar num sensacionalismo barato, para tentar conseguir audiência?

Felizmente, “The Keepers” foge dessa fórmula.

Eu não consigo lidar muito bem com histórias que abordem estupro e, mesmo assim, consegui ver os depoimentos de Jean Wehner. Apesar de pesados e dolorosos (e de que eu, provavelmente, nunca vou esquecer deles), você vai acabar admirando a coragem dela.

werner spitz médico legista mostrando o crânio de cathy cesnik
The Keepers – Werner Spitz mostrando o crânio de Cathy Cesnik

Em um dos momentos, o médico-legista que analisou o corpo de Cathy, Werner Spitz (que também foi o responsável pelas autópsias de John F. Kennedy e de Martin Luther King), fala sobre o estado em que o cadáver foi encontrado. Ele mostra uma foto do crânio de Cathy e o seriado ganha um tom mais pesado.

Mesmo assim, dá para perceber que há um grande respeito à memória de Cathy Cesnik e as experiências de vida de Jean Wehner e Teresa Lancaster.

Esse é um assunto que não merece e que nem necessita de sensacionalismo. Os temas são abordados sem deixar de lado importância e a relevância que têm.

  • A qualidade das entrevistas

Eu trabalhei como jornalista por um tempinho e sei como é complicado entrevistar uma pessoa que não quer que aquelas informações sejam divulgadas.

Só de imaginar Jean Wehner falando sobre a série de abusos que sofreu nas mãos do Padre Maskell, já dá para entender o porquê as entrevistas desse documentário são tão boas. Acredito que, nesses momentos, a equipe nem fez perguntas e só deixou a Jean falar livremente em frente à câmera.

Em um dos episódios, acompanhamos a entrevista de Edgar Davidson, apontado como suspeito de matar a Irmã Cathy – ele está quase senil e as perguntas são respeitosas à condição dele, mas não deixam de pressioná-lo um pouco.

Em outro momento, o atual detetive responsável pelo caso é bombardeado com fatos e informações que Ryan White, o diretor do documentário, coletou com Abby e Gemma. Ele chega a fazer caras de espanto porque que boa parte das informações ainda está sob segredo de justiça.

É bem interessante observar a dinâmica dessas entrevistas e dessas conversas.

Uma das minhas maiores expectativas era ver o depoimento do próprio Padre Maskell, mas ele teve um derrame e morreu em 2001, depois de passar anos na Irlanda, fugindo dos desdobramentos do caso. O documentário dá um enfoque nisso e mostra que Maskell, apesar de ser relativamente novo (ele morreu aos 62 anos), já sofria de demência e não se lembrava dos acontecimentos do passo.

Até mesmo Gerry Koob, um ex-Padre que afirmou ter sido muito apaixonado por Cathy e que teve um papel central na noite do desparecimento de Cathy, é posto na parede em alguns momentos.

irmã cathy cesnik
The Keepers

Para aqueles que gostaram de “Spotlight – Segredos Revelados”, esse é um documentário que não só aprofunda a causa, mas que mostra que o trabalho de amadores também pode ser efetivo – de certa forma – nesses casos.

“The Keepers” não é um seriado que você deve ver só por ver. É um documentário que, imagino, pode levar alguns até a questionarem a própria fé.

Ao mesmo tempo, essa é uma experiência essencial. Nem que seja para impedir que coisas como essa sigam acontecendo no mundo, sem que ninguém se manifeste.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

O Nevoeiro – Stephen King

tripulação de esqueletos

Nome: Tripulação de Esqueletos (calma que eu já já explico)

Autor: Stephen King

Editora: Suma de Letras

Páginas: 133

Mas Mandariela, você trocou as bolas? Por que o título do livro é um e o nome que aparece embaixo é outro?

“O Nevoeiro” é um conto de Stephen King, que aparece em “Tripulação de Esqueletos”, uma coletânea dos contos desse escritor, publicada pela primeira vez em 1985. Ele é o primeiro conto do livro e é enorme, gente! É quase tão grande quanto alguns dos exemplares que coloquei na minha lista de livros para ler em um dia!

Acabei pegando “Tripulação de Esqueletos” emprestado na biblioteca do meu bairro, só porque vi que esse era um dos contos inclusos e porque eu estava com vontade de ler algo que me lembrasse um pouco “Stranger Things” (vem ni mim, 27 de outubro!).

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No começo, acompanhamos a história de David Drayton, de sua esposa, Stephanie, e de seu filho, Billy. Os três estão em sua casa de veraneio em um dia bem quente de julho, só na curtição das férias. Até que uma grande tempestade os atinge. A combinação de chuva e de ventos fortes derruba árvores e fios elétricos e David, Billy e Stephanie ficam isolados na casa, sem comunicação alguma. Nem mesmo o rádio funciona.

Por cima e um pouco além do lago que permeia a propriedade dos Drayton, David consegue observar um nevoeiro denso e branco, como ele nunca tinha visto antes.

Decidido a ir comprar suprimentos para aguentar o dia, caso a luz não volte, David parte com seu filho Billy e o vizinho Brent Norton, até o supermercado da cidade. E é lá que eles estão quando o nevoeiro os atinge.

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Coisas horríveis acontecem com aqueles que optam por atravessar o nevoeiro, na tentativa de alcançar os familiares que ficaram do lado de fora. Banhos de sangue, barulhos estranhos e vultos animalescos podem ser vislumbrados por quem ficou do lado de dentro do supermercado, sem que ninguém tenha certeza do que está vendo. Por conta da densidade do nevoeiro, não é possível saber com clareza o que está do outro lado.

Olha, eu não gosto de terror. Mesmoooo. Eu só li “O Nevoeiro” porque li resenhas recomendando ele como não muito assustador e porque estou tentando preparar meu psicológico para ler “It – A Coisa” (mesmo que eu não goste de terror, eu gostei do trailer!). Talvez, por isso, quando eu terminei de ler “O Nevoeiro” não dei continuidade aos contos de “Tripulação de Esqueletos” e devolvi o livro para biblioteca com alívio no coração.

Esse é um livro bem interessante para se estudar como o King constrói o suspense e a tensão de cada uma das cenas. É fascinante.

Uma vez eu li um conselho de escrita que dizia que você deveria pensar em um personagem, entender qual seria o maior sonho dessa personagem e, depois, descobrir o que de pior poderia acontecer com esse personagem, para evitar que ele atinja seus sonhos. É exatamente isso que King faz nessa narrativa.

Sendo sincera, eu não senti muito medo e algumas cenas me pareceram meio banais. A impressão que eu tive é que, por estarem num supermercado, King fez uso de vários personagens que estavam ali fazendo compras e, conforme o texto foi avançando, ele foi usando esses personagens para dar continuidade à narrativa. E isso foi legal, mas toda vez que eu achava que ele ia utilizar esses personagens para amarrar uma ponta solta, ele acabava largando essa ponta de lado e seguindo em frente (meu medo de dar spoiler é tanto, que eu estou até misteriosa!)

susto

Eu estava um pouco errada quando achei que esse livro seria parecido com Stranger Things. Não é não. No seriado, a gente entende o porquê das coisas acontecerem e as motivações por trás de tudo. Em “O Nevoeiro” não há explicações. Duas ou três suposições aparecem e são levantadas por King, mas nada de concreto, sabe? Por mais clichê que seja, ás vezes, aquele momento em que o vilão conta todo o seu plano maligno para o herói é necessário para dar mais vivacidade para o texto.

Durante a leitura, fiquei preocupada que virasse algo parecido com “Ensaio sobre a Cegueira”, do Saramago. Eu adorei a leitura do Saramago, mas abandonei o livro desesperada, quando a narrativa culminou em uma cena que mexeu comigo de tal forma que, até agora, só de lembrar, eu fico enjoada.

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Mas não, apesar de ser um terror que pende para a distopia, ele não envereda pelas narrativas mais complicadas ou pelos juízos de moral. Muito pelo contrário.

O final foi… decepcionante. Qual é?! Disseram que o final do filme foi melhor e diferente. Eu não vejo filmes de terror e nunca vou saber avaliar isso direito, mas acho que qualquer coisa seria melhor do que o final incompleto que ele deu. Se ele decidisse transformar isso num livro de uma vez por todas, talvez o final fosse um pouco mais interessante.

Sem querer dar spoilers, foi meio que uma coisa à la “A Procura da Felicidade” sabe?

Em 2007, o diretor Frank Daranbot produziu um filme inspirado por “O Nevoeiro”. E em 22.jun.2017, uma série de TV baseada no livro estreou no canal Spike, lá dos EUA.

A Netflix anunciou recentemente que a série inspirada em “O Nevoeiro” vai ser disponibilizada no catálogo deles no dia 25.ago.2017. Tô ansiossísima!!! 

O NEVOEIRO THE MIST SERIADO IMAGEM DE DIVULGAÇÃO DISPONIVEL NA NETFLIX

Imagino que voltar a Paranapiacaba depois de ler um livro como “O Nevoeiro” vai ser uma tarefa muito difícil. Se você acha que narrativas como a do livro são totalmente de mentira e que “não é possível que algo assim aconteça na vida real,” tente ficar na cidadezinha depois das 16 horas, quando a noiva vem cobrir a cidade com seu céu. O documentário que eu produzi durante a faculdade ajuda a ter uma noção de como são as coisas por lá.

Esse tipo de livro sempre me deixa meio ansiosa ao lembrar que, em uma situação como essa, se eu perdesse meus óculos ou se algo acontecesse com eles, eu ia morrer muito rápido. Sou tão míope que só de ficar sem meus olhinhos, pelo menor período que seja, eu já fico com dor de cabeça. Eu totalmente ia me voluntariar para virar comida de monstro! lol

Recomendo para você que gosta de terror, que quer ler um clássico do mestre dos livros de terror e que, assim como eu, está procurando diversificar a lista de leitura e sair um pouquinho da zona de conforto.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

3 motivos para ver a série GLOW

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Vez ou outra eu assisto alguma coisa na Netflix que não é um documentário. Eu vi um trailer bem legal de “GLOW” em junho e fiquei com ele na cabeça. Quando percebi que a série estava disponível para ver, nem pensei duas vezes e cliquei.

Dividido em 10 episódios, “GLOW” foi baseado em um seriado americano homônimo, que foi ao ar em 1986.

Nele, nós acompanhamos a história de Ruth Wilder, interpretada por Alison Brie, a Trudy Campbell de Mad Men. Ruth é uma atriz que está em busca de um bom papel, para alavancar sua carreira. Cansada de interpretar secretárias, Ruth é convidada por sua empresária a ir até uma audição de um novo projeto independente, “Glow”.

Ao descobrir que Glow, ou Gorgeous Ladies of Wrestlig (Garotas Lindas da Luta Livre), se preferir, não é uma série ou uma novela e sim um projeto para uma espécie de WWE feminina, Ruth fica desanimada e aborrecida.

glow

Como se isso pudesse justificar algo (mas a gente sabe que não pode), Ruth acaba dormindo com Mark, o marido de sua melhor amiga, Debbie Eagan. Na verdade, no começo, a gente tem a impressão de que Ruth tem um pouco de inveja de sua amiga. A Debbie, também atriz, fez um papel de sucesso em uma novela e agora parou de trabalhar para poder cuidar de seu filho com Mark e ser uma dona de casa.

Decidida a deixar seu preconceito com a luta livre de lado, Ruth decide tentar uma nova audição para fazer parte da equipe de Glow. Durante a segunda audição, Debbie interrompe Ruth furiosa. A amiga descobriu a traição e está prontinha para dar a maior surra – de verdade e na frente das outras meninas selecionadas e do diretor- em Ruth.

Sabendo que poucas coisas podem fazer o programa sair do papel e que precisa de boas atrizes para poder ter um lucro, o criador e o diretor de Glow, Sam Sylvia, decide convidar Debbie para fazer parte do programa.

personagens femininas de glow novo seriado da netflix

“Glow” envolve uma série de storylines pessoais e gerais e isso deixa o seriado bem legal. Há os problemas para tirar o programa do papel e torná-lo um sucesso, há os problemas de Ruth e de Debbie individualmente, e de Ruth e de Debbie como amigas que viraram inimigas. Além de outros acontecimentos que deixam todos os 10 episódios interessantes.

Eu gostei porque eles fizeram bom uso do tempo disponível do seriado, sem precisar encher a história com “fillers”, aqueles episódios sem nenhum conteúdo, que não avançam a narrativa e que só servem para deixar a temporada com um número X de programas.

  1. Girl Power

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Duh, é um programa sobre mulheres fazendo luta livre ao maior estilo Hulk Hogan, no auge dos anos 80, com direito a polainas e tudo mais. Só isso já deixa o seriado interessante e inovador.

Mas as personagens escolhidas para participar do programa não encarnam nada do estereótipo de gostosonas, muito pelo contrário. Glow tem uma diversidade de cores, nacionalidades, corpos e histórias pessoais que é bem legal.

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É impossível não ficar intrigado com a história pessoal da Sheila, the She-Wolf. Ou de torcer para a família de Machu Picchu, aceitar que, assim como eles, ela é uma lutadora nata. Ou de tentar entender um pouco mais da Britânica e de admirar certas atitudes dela, ao botar machistas no lugar.

O relacionamento entre Debbie e Ruth também é muito, muito legal. As duas super amigas, que viram quase inimigas depois de Ruth dormir com o marido de Debbie, não tem escolha e têm que trabalhar juntas, como uma dupla. A forma como elas superam esse problema no relacionamento é muito bem desenvolvida.

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O treinamento físico das meninas é mostrado no seriado em si e isso ajuda a gente a entender todo o trabalho que elas tiveram para deixar as lutas bem realistas. A única atriz que tinha um histórico de já trabalhar com luta livre é a Kia Stevens, que interpretou a Tammé Dawson ou, se você preferir, The Welfare Queen. Antes, ela era conhecida como Awesome Kong.

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     2. Desenvolvimento de Personagens

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Uma das coisas que eu menos gosto é daqueles seriados em que um personagem X atravessa o inferno inteiro, luta com demônios e bruxas, tem que cometer atos de crueldade e, quando termina sua jornada, não muda em absolutamente nada.

É tão irritante isso!

Para tornar “Glow” um programa de TV de sucesso, todas as meninas, Sam Sylvia, o diretor, e Bash, o produtor, tiveram que trabalhar duro e enfrentar diversidades. No episódio final é possível ver como e o quanto as personagens evoluíram e mudaram por causa disso.

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Sam Sylvia, por exemplo, o diretor de filmes gore e desconhecidos aceitou ser o diretor de “Glow”, em troca de poder gravar o filme que quisesse depois. Primeiramente visto como um homem babaca, ele evolui, assume responsabilidades e dá apoio. É ele quem participa de dois dos plot twists que eu mais gostei da série. Um acontece no episódio 7 e me deixou numa vibe de “Ai meu Deus, e agora??? O que é que vai acontecer??” e o outro foi meio previsível, mas a reação dele foi excelente.

Senti que “Glow” evoluiu bem e trabalhou de maneira habilidosa com os personagens que tinha em mãos. O último episódio termina e, apesar da gente querer mais, ele realmente tem um fim. Nada que escritores habilidosos não conseguissem trabalhar sobre, para obter uma nova temporada. Mas adorei muito a sensação de encerramento e de poder imaginar o que ia acontecer com as personagens depois, sem ter que ficar afoita para uma nova temporada (não é, Stranger Things?)

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    3. Esse vídeo que o pessoal da Netflix fez com a Gretchen

Todo mundo sabe que o marketing da Netflix é sensacional, né?

O que eu acho bem legal de ver é que os escritórios regionais da Netflix tem uma liberdade grande para poder fazer o que quiserem. Eu já vi comerciais de Orange is the New Black estrelados pela Valeska Popozuda, Narcisa e pela Inês Brasil e outro de Stranger Things com a Xuxa, eles são hilários, mas que seriam impossíveis de se explicar (especialmente em termos de conceito) para uma equipe gringa.

Para divulgar Glow, o pessoal do Brasil convidou a Rainha do Bumbum, Gretchen, para participar do seriado, junto com Rita Cadillac, neste vídeo hilário. Sensacional! Toda vez que eu penso nele, eu fico rindo sozinha! hahaha

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Espero que goste da minha indicação de seriado para ver na Netflix! Será que você vai gostar de Glow tanto quanto eu gostei?

Beijoos, A Garota do Casaco Roxo