O Segredo dos Corpos – Vincent DiMaio e Ron Franscell

Capa e banner de divulgação o segredo dos corpos vincent di maio ron franscell editora darkside
Imagem de divulgação de “O Segredo dos Corpos”, da Editora Darkside

Nome: O Segredo dos Corpos

Autores: Dr. Vincent DiMaio e Ron Franscell

Editora: Darkside

Páginas: 281

Ah, que saudades de escrever para o meu blog. Que saudades de poder usar minha própria voz e escrever aquilo que me dá na telha.

Pois é, abigos, a porca torceu o rabo e vida de assalariada acabou entrando entre minha pessoa e a felicidade de escrever meus textinhos por aqui.

Agora que estou mais tranquila, espero poder voltar, aos poucos, com as minhas resenhas.

“O Segredo dos Corpos” é um livro que eu desejava há tempos. Vi ele em uma livraria e fiquei completamente encantada com o projeto gráfico. Com capa dura, fita de cetim para marcar a página, fotos dos casos e ilustrações maravilhosas, esse livro é lindão. O problema?

A edição custava cerca de R$ 70 e eu não tinha esse dinheiro (a gente trabalha e trabalha, mas é difícil sobrar dinheiro para qualquer coisa). Quando é assim, eu normalmente apelo para amigos que possam ter ele, vou a biblioteca ou compro o e-book. Nesse caso, eu realmente queria ter o livro, então fiz um esforço e esperei uma promoção para comprá-lo.

Neste livro de não-ficção, acompanhamos a carreira do Dr. Vincent DiMaio, um médico-legista americano que foi decisivo em alguns casos criminais dos Estados Unidos.

DiMaio relembra a vida de seu pai, também legista, e fala de casos de sua carreira como a vez em que ele ajudou a determinar se Vincent Van Gogh havia se matado ou fora vítima de assassinato, a vez em que ele participou da exumação e da reavaliação do assassinato de Lee Harvey Oswald, o assassino do presidente John F. Kennedy, que foi morto sob custódia da polícia.

DiMaio também leva o leitor a discussões sobre mortes emblemáticas como a de Trayvon Martin, que levantou todo um debate sobre racismo policial.

Em um dos capítulos, DiMaio conversa com o leitor sobre o caso do “West Memphis Three”, cuja história eu acompanhei por inteiro em um livro chamado “The Devil’s Knot: The True Story of the West Memphis Three”, da jornalista Mara Leveritt. Nele, acompanhamos o caso do assassinato de três crianças na cidade de West Memphis. Após uma investigação cheia de erros, a polícia local acabou por prender, sob a acusação de assassinato, três adolescentes que moravam na mesma região e que eram considerados “satanistas” e “adoradores do diabo” pela população. Sem nenhuma prova, os adolescentes passaram anos na cadeia por um crime que não cometeram.

No geral, a leitura de “O Segredo dos Corpos” é fascinante e me lembrou muito alguns livros de investigação criminal real semelhantes como “Death’s Acre: Inside the Legendary Forensic Lab the Body Farm Where the Dead Do Tell Tales”, de William Bass e “Dead Men Do Tell Tales: The Strange and Fascinating Cases of a Forensic Anthropologist”, de William R. Maples, que também seguem a carreira de profissionais forenses renomados e cuja leitura me divertiu bastante.

O livro é bem ilustrado com imagens e fotografias que ilustram alguns dos casos, além de ter um projeto gráfico incrível.

No entanto, preciso ressaltar: por fora bela viola, por dentro pão bolorento.

Apesar da beleza da edição, a tradução do conteúdo é uma das piores que já tive a oportunidade de ler. Parece que o texto foi passado de inglês para português mecanicamente, sem um trabalho de polimento por parte do tradutor.

Foi tão ruim que, para conseguir entender DiMaio, tive que passar trechos inteiros para o inglês mentalmente. Li parágrafos duas, três, quatro vezes e as frases de DiMaio simplesmente não faziam sentido algum.

Em certos trechos do livro, encontrei erros de digitação e nomes incorretos (em um dos casos, há um personagem que muda de nome por um erro de digitação e que deixa o leitor completamente perdido por quase uma página inteira), além de sentenças traduzidas de maneira errônea, causando duplo sentido e abrindo espaço para dúvidas (e, acredite em mim, dúvidas são a última coisa que você quer ter em um livro cujo assunto é bem complicado e delicado, além de intrigante e curioso).

Também achei o ritmo da escrita um pouco lento demais em certos trechos, algo que não sei dizer se é do escritor mesmo ou se é a má tradução.

Eu não sei vocês, mas eu deixo qualquer projeto gráfico incrível de lado em troca de um livro com conteúdo absolutamente impecável. Para mim, não importa a capa que o livro tenha, mas sim a mensagem que ele tem para me passar.

Apesar de ter gostado de seguir a carreira de DiMaio, realmente me decepcionei com a tradução e a revisão e achei o preço do livro fora da realidade de um conteúdo no estado em que me foi apresentado.

Espero que eles consigam consertar esses erros nas próximas edições de “O Segredo dos Corpos”. O conteúdo é super bem apresentado, mas precisa passar por um trabalho de polimento grande, para alcançar todo o potencial que merece.

Beijoos, A Garota do Casaco Roxo

O Demônio na Cidade Branca – Erik Larson

odemonionacidadebranca

Nome: O Demônio na Cidade Branca: Assassinato, magia e loucura na feira que mudou os EUA

Autor: Erik Larson

Editora: Record (mas foi publicado pela Intrínseca recentemente também)

Páginas: 556

“O Demônio na Cidade Branca” foi um achado. Explico: Na livraria do meu bairro, vira e mexe vendem alguns livros bons, que ficaram encalhados no estoque das editoras, por R$ 12.  Lá, eu comprei “O Demônio na Cidade Branca” e muitos outros títulos – muitos mesmo, por isso estou proibida de comprar livros novos. Pouco tempo depois, descobri que a Editora Intrínseca tinha republicado o livro de Erik Larson no final do ano passado. Minha edição é de 2005, mas acho que a experiência de leitura é a mesma.

“O Demônio na Cidade Branca” é um livro de não-ficção que aborda acontecimentos e fatos históricos reais. Mais especificamente, nós seguimos a história da Exposição Universal de 1893, oficialmente conhecida como “Exposição Internacional Colombiana”. Sediada na cidade de Chicago, a feira internacional teve duração de um ano e buscava celebrar os 400 anos da chegada de Cristovão Colombo ao Novo Mundo, a América – daí o nome “Colombiana”.

Erik Larson, através de uma extensa pesquisa em livros, documentos oficiais, diários e arquivos, reconstrói a narrativa de tal forma, que a impressão que temos é que estamos lendo um romance com diálogos, cenários e personagens principais e secundários. Ele chega a ser quase cinematográfico.

No livro, nós acompanhamos as dores e o trabalho árduo de Daniel Burham, um dos maiores arquitetos dos Estados Unidos e o responsável por realizar a feira.  Burnham foi o criador do edifício Flatiron em Nova Iorque e ficou encarregado de supervisionar o trabalho de elaboração e design dos prédios da Exposição Universal. Ele também foi o responsável por construir os planos e por tonar a feira realidade. Os prédios seguiram um padrão arquitetônico e eram todos brancos, daí o nome “Cidade Branca”.

exposição universal
Na Exposição Universal de 1893, havia prédios para cada área do conhecimento (Humanidades, Manufaturas, Indústrias…) e também pavilhões temáticos para diversos países do mundo.

Junto com Burnham estava também Frederic Law Olmsted, o paisagista responsável pelo Central Park, também de Nova Iorque. Juntos, os dois tiveram o trabalho gigantesco e descomunal de transformar uma área pantanosa e úmida nos arredores de Chicago em uma Exposição Universal de dar inveja à de Paris, que aconteceu em 1889, e de sobrepujar o grande marco da exposição anterior, a Torre Eiffel. A exposição tinha até um grande lago navegável, que foi construído para agradar aos desejos paisagísticos de Olmsted.

exposição universal 2
A “Corte de Honra” de Burnham e o lago de Olmstead.

Paralelamente aos desafios de Burnham, nós seguimos o jovem médico H.H. Holmes, cujos olhos carinhosos e gestos afetuosos eram uma fachada para um grande psicopata que matou muita gente, ao longo do decorrer da Exposição Universal.

Visando obter lucro com o afluente de pessoas que iria até Chicago para visitar os pavilhões e prédios de Burnham, H.H. Holmes construiu um hotel mórbido, com canos de ventilação, passagens secretas e um porão equipado com um crematório e ácidos e solventes químicos, para ajudá-lo a se livrar dos corpos. Holmes era um serial-killer de deixar Jack, o Estripador no chinelinho. 

Entre os anos de preparativos que antecederam a Exposição, até a construção dos prédios; os acontecimentos da Feira em si; os assassinatos de Holmes, culminando, por fim, na prisão do assassino, através do trabalho do detetive Geyer, “O Demônio na Cidade Branca” é um livro eletrizante e de tirar o fôlego, que vai fazer qualquer jornalista desejar tê-lo escrito. Eu me peguei segurando a respiração em diversos momentos, por causa de Holmes, e também torcendo para que o trabalho de Burnham desse certo, além do sucesso da exposição.

Cenários e diálogos são reconstruídos por Larson através de suas extensas pesquisas. A narrativa começa conosco a bordo do Olympic, junto com Burnham, enquanto o navio cruza o Oceano Atlântico, para ajudar a resgatar a tripulação e os passageiros de um outro navio, que havia afundado a pouco, o Titanic. Tecendo conexões entre momentos históricos e comparativos que ajudam leitores mais leigos a entender o que está acontecendo, um dos principais momentos da história dos EUA ganha vida, cor, cheiro e forma.

Muitas curiosidades são levantadas e a quantidade de coisa que eu aprendi com esse livro não tá escrita! Um dos exemplos desses aprendizados inesperados aconteceu por conta do exaustivo trabalho dos engenheiros para encontrar algo que fosse superior à Torre Eiffel ,em todos os aspectos. O resultado foi obtido pelo engenheiro George Ferris, que construiu a primeira roda gigante (em inglês “Ferris Wheel”) da história. Os carrinhos da roda gigante tinham janelas de vidro e as descrições de Larson sobre o terror e o medo dos primeiros passageiros da roda gigante são hilárias. Pedidos de casamento, casamentos e tentativas de suicídio aconteceram naquela roda gigante.

Ferris-wheel - EXPOSIÇÃO UNIVERSAL
A primeira Roda Gigante da história, construída na Feira Internacional Colombiana

Outros personagens de importância histórica mundial passeiam pela feira e tudo o que você vai querer é ler mais e mais. Os assassinatos de Holmes também ajudam a dar um toque meio noir ao livro e, apesar de serem pesados, as descrições não são tão detalhadas a ponto de deixar você – muito – assustado. O perfil psicológico de Holmes é muito bem construído e é difícil não se surpreender com a quantidade de gente que ele matou sem que ninguém percebesse ou notasse algo de estranho.

A única coisa que eu senti falta foram imagens e fotografias. É bem comum, nesse tipo de livro, ter um capítulo inteiro só com imagens e fotografias que ajudam a criar um imaginário das cenas descritas e dos personagens também (eu, por exemplo, imaginei Burnham como Chris Hemsworth e agora me recuso a pesquisar seu rosto e ver que ele não é nada disso). A verdade é que a falta de imagens é explicada até por Larson, no próprio livro. Como uma forma de conseguir mais lucros para a exposição – que estava atolada em dívidas – Burnham vendeu os direitos de imagem e só havia um único fotógrafo autorizado a tirar fotos do local, por isso a escassez de registros. Qualquer hora vou até uma livraria só para ver se há fotos na edição da Intrínseca.

Recomendo “O Demônio na Cidade Branca” para qualquer um que goste de história, arquitetura, assassinatos, suspense, investigação e curiosidades. Quem gostou de filmes como “Os Intocáveis”, do Brian de Palma, vai adorar isso aqui. O livro é um prato cheio para quem quer se desafiar e sair um pouquinho da zona de conforto na leitura.  

Definitivamente, essa já é uma das melhores leituras que fiz em 2017 e agora só me resta procurar por livros semelhantes e tão legais quanto esse.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo

CSI: Morte no Gelo – Max Allan Collins

csimortenoiceNome: CSI: Morte no Gelo

Autor: Max Allan Collins

Editora: Prestígio Editorial

Páginas: 277

Preço: Aparentemente, nas principais livrarias ele está esgotado. Mas no Buscapé e em sites de sebos é fácil encontrá-lo por uma variedade de preços! Só procurar com atenção!

Li esse livro faz um tempão, mas com o pedido de uma leitora no meu post dos ‘’7 Melhores Livros de Investigação’’, decidi relê-lo e postar uma resenha para os leitores que ficaram curiosos.

‘’CSI: Morte no Gelo’’ não é um livro que conta os bastidores da série nem nada do tipo (com quase 13 temporadas, acho que ia ser interessante saber como eles montam tudo e ainda tem novas ideias). É como se fosse um roteiro de CSI, que acabou não virando episódio -parei de assistir a série já tem um tempo, mas lembro-me que quando li pela primeira vez, localizei a história em algum lugar da quinta e da sexta temporada, mas definitivamente antes da sétima- e que eles adaptaram e transformaram em livro.

Como em todo episódio da série, conta dois casos que só são resolvidos nas ultimas páginas, assim como os da tv são resolvidos lá pelo minuto 37. Sarah e Grissom viajam para uma conferencia forense em uma Nova York coberta de neve por causa de uma nevasca. Chegando ao hotel, eles percebem que a tempestade impossibilitará a chegada e a saída de qualquer pessoa daquela região. A situação fica ainda pior quando os dois descobrem um corpo carbonizado depois de um passeio pela floresta local. Todo mundo ali é suspeito e eles não vão ter outra opção além de contar com a provável ajuda de um assassino frio e cruel.

‘’Sentando-se, Catherine deu uma olhada para Robbins, e depois pressionou seu olho sobre a objetiva do microscópio. Na lamina que ele havia preparado, ela viu o que pareceu ser uma amostra de carne humana com várias estranhezas notáveis – especificamente, distorções no núcleo de algumas células, vácuos e espaços em torno do núcleo de outras.

p.30’’

Enquanto isso, na ensolarada Las Vegas, Nick, Warrick e Catherine encontram o corpo de uma mulher perto de uma área de proteção ambiental do Lago Mead. Após a pericia, os três percebem que o caso que tem em mãos é diferente daquilo que já viram, praticamente sem evidencias para verificar e o pior: com um corpo cuidadosamente congelado por seu assassino (trocadilho macabro do autor, na área congelada o corpo é encontrado carbonizado. Na ensolarada, ele está congelado…).

As descrições são muito bem feitas e, como os personagens já estão fixadas no nosso imaginário, é fácil acreditar que você realmente está ‘’vendo’’ um episódio de CSI. Outra coisa legal é que o autor explica o funcionamento de alguns dos equipamentos forenses que eles usam no livro.

O livro é bom e, mesmo na releitura me surpreendeu (eu tenho a habilidade impressionante de esquecer finais. “Fiquei o livro inteiro me perguntando: ‘‘quem será o assassino? “). Acho que ‘’CSI: Morte no Gelo’’ é um ótimo presente para os fãs de CSI, diferente de DVDs ou de qualquer presente promocional. Qualquer fã da série ou de livros de investigação, ao estilo ‘’Sherlock Holmes’’ e com pitadas deliciosas de ciência vai adorar.

Beeijos, A Garota do Casaco Roxo